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Jornalista e comentarista de economia

Opinião|Limites políticos à guerra comercial EUA-China?

Donald Trump pode inviabilizar a sua reeleição se continuar produzindo trombadas tão relevantes em sua estratégia política

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Foto do author Celso Ming
Atualização:

Grandes perdas sempre são levadas a sério. C0mo produz incertezas e estragos importantes em todo o mundo, a guerra comercial, especialmente a que acontece entre Estados Unidos e China, está sendo levada muito a sério.

No entanto, são tantos seus efeitos nocivos para todos, e também para os Estados Unidos, que fica difícil imaginar que poderá ser prolongada ou aprofundada indefinidamente.

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, junto com o presidente da China, Xi Jinping, na reunião do G-20 em junho de 2019 no Japão Foto: Erin Schaff/The New York Times

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Comecemos pelas contradições, digamos, retóricas. O presidente americano, Donald Trump, já afirmou que o presidente da China, Xi Jinping, é inimigo dos Estados Unidos e fez um apelo para que as empresas americanas abandonassem a China. Na última sexta-feira, ele disse que o presidente do Fed (Federal Reserve, o banco central dos EUA), Jerome Powell, é ainda maior inimigo dos Estados Unidos do que Xi porque se recusa a despejar incentivos monetários ou a baixar os juros no nível pretendido por ele próprio, Trump. Mas nem por isso sugeriu que os bancos ou as empresas americanas iniciassem algum movimento de boicote ao Fed.

Mais contraditória ainda é a atitude. Trump alardeia que a economia americana vai muito bem, que há pleno-emprego e bom crescimento econômico, uma ficha que o resto do mundo não consegue exibir. Mas cobra do Fed a derrubada dos juros como se a economia americana estivesse no meio de uma crise catastrófica.

'Como de costume, Powell nos decepcionou', escreveu Trump. Foto: Mandel Ngan/AFP

Ontem, o articulista do jornal The New York Times Peter Goldman fez uma observação irrefutável: “Trump pode combater a China ou expandir a economia. Não pode fazer as duas coisas”. Ou seja, se quer que a economia mundial retome o crescimento hoje ameaçado, não pode condenar a China, derrubar sua atividade produtiva e reduzir suas encomendas ao resto do mundo e, assim, contribuir para o início de uma recessão global.

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O calendário eleitoral dos Estados Unidos começa, também, a impor sua lógica. Há duas semanas, suspendeu a vigência de sobretaxas impostas a importações da China sob a justificativa de que não poderia azedar o Natal dos americanos com o encarecimento de produtos made in China. E na sua edição desta quarta-feira, o mesmo New York Times mostrou que os agricultores dos Estados de Iowa, Minnesota e Wisconsin, grandes eleitores de Trump, começam a externar sua insatisfação com os efeitos da guerra comercial com a China, na medida em que Pequim desvia para outros países as compras de produtos agrícolas feitas antes aos Estados Unidos.

Se as exigências natalinas já são suficientemente fortes para levar o presidente Trump a desapertar os torniquetes que vinha aplicando sobre a economia da China, com maior ou igual razão terá de desapertá-los à medida que começar para valer a campanha para as eleições presidenciais de novembro de 2020.

Secretário da Agricultura dos EUA Sonny Perdue em visita a agricultores na Califórnia; reclamações com queda de exportações são frequentes Foto: Mike Blake/Reuters

Falta saber se, enquanto isso, para os interesses imediatos da China, vale mais a pena endurecer com os Estados Unidos de maneira a causar embaraços à campanha de recondução de Trump ou acompanhar a trégua sugerida por ele.

Trump pouco liga para as inconsistências de suas mensagens na TV e no Twitter. Mas pode inviabilizar sua reeleição se continuar produzindo trombadas tão relevantes em sua estratégia política.

CONFIRA

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» Melhora no crédito

Deu para notar bom avanço no crédito para pessoas físicas: crescimento de 1,6% em julho (sobre junho), de 3,9% no trimestre, de 8,5% no ano (até julho) e de 15% no período de 12 meses terminado em julho. Mesmo levando em conta que o crédito para empresas continua fraco (queda de 1,7% em julho), pode-se esperar por certa reação nas compras no varejo. Mas as famílias continuam bastante endividadas: em julho, nada menos que 44,3% da renda estava comprometida com pagamentos de dívida.

Opinião por Celso Ming

Comentarista de Economia

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