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Linha de visão

O planeta Terra como o maior obstáculo para o avanço das telecomunicações

Guy Perelmuter, O Estado de S.Paulo

05 de dezembro de 2019 | 03h00

Conforme vimos na última coluna, o número de satélites ativos é significativamente menor que o número de satélites em órbita. Suas aplicações (civis ou militares) são diversas – atuam em áreas como comunicações, navegação, meteorologia, mapeamento do espaço e mapeamento da Terra. Dependendo de seu objetivo, utilizam diferentes sistemas de energia, tecnologias de controle de altitude, antenas para transmissão e recepção de dados e dispositivos para coleta de informações (como câmeras de diversos tipos, por exemplo). 

De acordo com a organização sem fins lucrativos Union of Concerned Scientists (algo como "União dos Cientistas que se importam") – fundada em Cambridge, nos Estados Unidos em 1969 e que possui mais de duzentos mil associados que trabalham pela defesa da ciência – os satélites de comunicações respondem por cerca de 40% do total dos satélites ativos em órbita atualmente. De fato, o mercado de telecomunicações, que atualmente é responsável por receitas globais acima de um trilhão de dólares, foi afetado de forma significativa pela exploração espacial. O primeiro satélite de comunicações foi lançado ao espaço em dezembro de 1958 pelos Estados Unidos. O SCORE (Signal Communications by Orbiting Relay Equipment, ou Comunicação de Sinais através de Equipamento de Retransmissão em Órbita) transmitiu, via ondas curtas, a voz do então presidente dos EUA, Dwight Eisenhower, para a Terra. É interessante mencionar que esse foi um dos primeiros projetos desenvolvidos pela ARPA (atualmente DARPA), que é a Agência de Projetos de Pesquisas Avançadas, ligada ao Departamento de Defesa do governo norte-americano e que também foi o berço da Internet.

Até o surgimento dos satélites, a curvatura da Terra era um obstáculo intransponível para os dispositivos de telecomunicações baseados em ondas de rádio de alta frequência, uma vez que eles precisavam ter o que se chama “linha de visão” entre transmissor e receptor. Foi com os satélites que tornou-se possível o estabelecimento de contato entre regiões distantes entre si, e provavelmente o maior marco desta transição tenha ocorrido em julho de 1962 com o lançamento do Telstar 1.

O Telstar 1, operado pela empresa de telecomunicações AT&T (American Telephone and Telegraph Company, ou Companhia Americana de Telefone e Telégrafo, fundada em 1885 por Alexander Graham Bell, detentor da patente do telefone), foi o primeiro satélite a retransmitir sinais de imagens (fotos e vídeo) e sons (para telefonia) e o primeiro a transmitir um programa de televisão de um lado a outro do oceano Atlântico. Em 23 de julho de 1962, a entrevista do então presidente dos EUA, John F. Kennedy, discutiu o preço do dólar nos mercados internacionais, garantindo que o país não iria buscar desvalorizar sua moeda. Essa tecnologia iria impactar, ao longo dos anos subsequentes, os mercados financeiros globais de forma dramática, abrindo caminho para a realidade com a qual nos acostumamos: acesso às notícias de forma instantânea, o desenvolvimento de máquinas para atuar sobre as mesmas e o efeito imediato que as notícias possuem nos preços dos ativos negociados em mercado.

Satélites geralmente percorrem um de quatro tipos de órbitas: órbitas elípticas (abaixo de 1.000 km ou mais de 40.000 km acima da Terra), órbitas geoestacionárias (aproximadamente 36.000 km acima da Terra, são um caso especial das órbitas geosíncronas), órbitas médias (entre 8.000 km e 24.000 km acima da Terra) e órbitas baixas (entre 250 km e 2.000 km acima da Terra). Mais de 60% dos satélites ativos estão percorrendo órbitas baixas (ou LEO - Low Earth Orbit), enquanto cerca de 30% situam-se em sincronia com a rotação Terra (daí o nome, órbita geoestacionária), permitindo que sobrevoem os mesmos locais nos mesmos horários. A ideia de satélites de comunicações em órbitas geoestacionárias foi discutida em 1945 pelo escritor de ficção científica Arthur C. Clarke (1917-2008) – baseado em publicações do físico austro-húngaro Hermann Oberth (1894-1989) e do engenheiro eslavo Herman Potočnik (1892-1929) – tendo como principal objetivo facilitar as comunicações aqui na Terra: as antenas das estações terrestres não precisam se mover para acompanhar o satélite, visto que tanto a antena quanto o satélite estão se movendo de forma sincronizada com a rotação ao planeta.

Na próxima coluna iremos continuar a discutir mercados impactados por satélites e pelo barateamento do acesso ao espaço, e iremos explorar as mudanças ocorridas ao longo dos últimos anos na dinâmica do desenvolvimento e construção dos próprios satélites – mais um novo mercado agora acessível à iniciativa privada. Até lá.

*Fundador da GRIDS Capital e autor do livro "Futuro Presente - o mundo movido à tecnologia", é Engenheiro de Computação e Mestre em Inteligência Artificial

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