Tiago Queiroz/ Estadão - 09/06/2020
Pequenas e médias empresas foram as que mais recorreram ao crédito emergencial do governo. Tiago Queiroz/ Estadão - 09/06/2020

Linhas emergenciais e desvalorização do câmbio aumentam o endividamento das empresas

Pequenos e médios negócios tomaram 72% dos créditos oferecidos pelo governo federal no contexto da pandemia, para cobrir as necessidades imediatas de caixa

Fabrício de Castro e Eduardo Rodrigues, O Estado de S.Paulo

29 de julho de 2021 | 05h00

BRASÍLIA - O aumento do endividamento das empresas leva em conta uma enxurrada de recursos disponíveis – com linhas emergenciais criadas pelo governo para o enfrentamento da covid-19 e também o momento favorável no mercado de capitais – e o efeito da desvalorização cambial.

As companhias conseguiram captar R$ 420,5 bilhões em 12 meses até março, uma alta de 28,3% na comparação com o acumulado de 2020. Desse total, mais de três quartos foram na forma de dívida, o que fez com que o endividamento subisse para 61,7% do PIB, patamar recorde. Os dados são de levantamento feito pelo Centro de Estudos de Mercado de Capitais da Fipe (Cemec-Fipe)

“Esse dinheiro veio da captação de recursos com custo financeiro baixo e boas condições de renegociação, graças a programas emergenciais de crédito lançados pelo governo com os bancos na crise”, diz o coordenador do Cemec-Fipe, Carlos Antonio Rocca. 

De acordo com ele, as empresas pegaram muito dinheiro via crédito bancário ao longo do ano passado para cobrir necessidades imediatas de caixa, mas também aproveitaram para fazer uma poupança diante das incertezas da pandemia. “Mais uma vez, o impacto da crise foi muito diferenciado. Mais de 100 mil empresas fecharam, enquanto outras conseguiram atravessar a crise com grande disponibilidade de recursos.”

Pequenas e médias empresas foram as que mais recorreram ao crédito das linhas emergenciais do governo, segundo o levantamento. Do total de R$ 272 bilhões de crédito bancário contratado em 12 meses até março, 72% ficaram com as companhias de menor porte. Entre as linhas que foram oferecidas como ajuda no combate aos efeitos econômicos da pandemia, estão o Programa Emergencial de Acesso a Crédito (Peac), do BNDES, e o Programa Nacional de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Pronampe), que foi renovado para este ano, após pressão dos setores, mas com condições menos vantajosas. 

Rocca explica, no entanto, que o principal fator responsável pelo salto no endividamento foi a desvalorização do real em relação ao dólar. Quando considerado em reais, o valor dos empréstimos intercompanhia no mercado internacional passou de 13,6% do PIB, ao fim de 2019, para 18,9% do PIB em março deste ano. A taxa de câmbio, que era de cerca de R$ 4 em dezembro de 2019, chegou a bater na casa de R$ 5,70 no fim de março de 2021.

“Essa dívida em dólares pouco variou, quase nada, o grande degrau foi a taxa de câmbio. Mas não se trata de um grande problema, já que os empréstimos intercompanhia com matrizes ou subsidiárias no exterior têm flexibilidades e condições de pagamentos melhores do que as de um crédito bancário ou de uma colocação de títulos no exterior.”

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Endividamento recorde das famílias ameaça travar retomada da economia brasileira

Dívidas das famílias chegam a 58,5% da renda, segundo o Banco Central, ao mesmo tempo em que inflação sobe e desemprego se mantém em alta; como consequência, economia pode crescer apenas 1,8% no ano que vem, diz especialista

André Jankavski, Fabrício de Castro e Eduardo Rodrigues, O Estado de S.Paulo

29 de julho de 2021 | 05h00

SÃO PAULO E BRASÍLIA - No início da pandemia, Sidneia Soares, de 49 anos, recebeu a notícia de que seria demitida. Com o início das restrições de locomoção, a loja em que ela trabalhava, em São Paulo, fechou as portas, e ela ficou desempregada. De lá para cá, virou-se com trabalhos informais. Porém, as contas continuaram a chegar. Sem o salário mínimo que recebia, precisou da ajuda de familiares para não atrasar pagamentos básicos, como luz, água e condomínio.

Agora, trabalhando como atendente de uma lanchonete e também como aprendiz em um salão de cabeleireiro, Sidneia conseguiu encaixar as contas em seu orçamento, mas ainda não tem previsão de como vai pagar as mensalidades do Financiamento Estudantil (Fies) que contraiu. “Eu fiz cortes nos meus gastos e reformulei tudo.”

Com a renda afetada pela pandemia de covid-19, famílias como a de Sidneia e também empresas nunca estiveram tão endividadas. Dados divulgados ontem pelo Banco Central mostram que o endividamento das famílias chegou aos 58,5% em abril, o maior porcentual da série histórica, iniciada em janeiro de 2005. Isso significa que, para cada R$ 100 que uma família recebeu no último ano, ela já tem uma dívida contratada de quase R$ 60. Já o comprometimento da renda mensal ficou em 30,5% em abril – ou seja, para cada R$ 100 recebidos por mês, R$ 30 foram usados para pagar parcelas dos empréstimos.

Já levantamento do Cemec-Fipe mostra que o conjunto de dívidas das companhias não financeiras no Brasil atingiu 61,7% do Produto Interno Bruto (PIB) em março de 2021, patamar também histórico. No fim de 2019, antes da pandemia, essa relação era de 50,1%.

O aperto no bolso das famílias, especialmente em um momento em que desemprego e inflação estão elevados, pode atrapalhar a retomada do crescimento econômico, avaliam economistas. “Os juros vão subir, e as famílias que já estão endividadas terão opções de crédito ainda mais caras, o que pode comprometer a retomada do consumo no ano que vem”, afirma Sérgio Vale, economista-chefe da MB Associados. Ele calcula que a economia crescerá somente 1,8% no ano que vem e que a retomada dos empregos será lenta.

Isso, na visão dele, terá impacto direto na renda dos brasileiros, que já está em baixa. Segundo dados do IBGE, a massa de salários em circulação caiu R$ 12 bilhões em um ano, o que representa um recuo de 5,4% no trimestre encerrado em abril em comparação ao mesmo período de 2020. Ou seja, o brasileiro está, além de mais endividado, mais pobre.

Para completar, a taxa de poupança das famílias vem em forte queda desde o segundo trimestre do ano passado. Segundo cálculos do Itaú Unibanco, o indicador chegou a ser de 31,1% no período entre abril e junho do ano passado, muito por causa do fechamento de comércios em geral no início da pandemia, e já voltou para 11,8% no primeiro trimestre deste ano.

“Muitas famílias de renda baixa deixaram de receber o auxílio emergencial no começo do ano e precisaram procurar outras formas de crédito”, diz o coordenador do Centro de Estudos de Mercado de Capitais (Cemec-Fipe), Carlos Antonio Rocca, que avalia como uma das principais características da atual crise a maior diferenciação entre as classes de renda. 

Na visão de Gustavo Ribeiro, economista-chefe do Asa Bank, a diminuição da renda do brasileiro não permite uma expansão da economia por meio de crédito, afinal muitos sequer estão conseguindo pagar as contas do dia a dia.

Crédito difícil

O endividamento pode ser positivo para uma pessoa, caso ela esteja se planejando para uma grande compra, como um imóvel, ou até para alavancar o seu negócio. Mas não é isso o que tem acontecido com muitos brasileiros de baixa renda durante a pandemia, que procuram empréstimos para pagar contas básicas. Elas, inclusive, têm dificuldade de conseguir uma linha de financiamento. 

Um levantamento divulgado pelo Serasa aponta que os bancos negam 44% das solicitações de empréstimos para pessoas que recebem menos de cinco salários mínimos por mês.

Um desses casos é o da diarista Eveline da Silva, de 39 anos. Ela viu a sua renda cair quase um terço durante a pandemia, para R$ 600, e o salário do seu marido ser reduzido pela metade. No mês passado, fez um cartão de crédito para conseguir fazer uma festa de aniversário para a sua filha. Conseguiu um cartão com limite de R$ 500 e gastou R$ 250 para comprar ingredientes para doces e salgados. 

“Vou pagar a fatura no próximo dia 5, pois não quero me complicar com os juros. Depois disso, vou deixar o cartão guardado”, diz Eveline.

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