José Patrício/Estadão
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Liquidez alta muda trajetória do dólar no mundo, mas analistas ainda veem real fraco

Bancos ainda trabalham com a moeda americana a R$ 5 até o final do ano; para o investidor, Brasil preocupa por ainda registrar aumento nos casos de coronavírus

Altamiro Silva Junior, O Estado de S.Paulo

11 de junho de 2020 | 10h00

A liquidez sem precedentes que vem sendo despejada no mercado financeiro internacional, que só no caso do Federal Reserve (Fed, o banco central americano) já bateu em US$ 3 trilhões nas últimas semanas, vem enfraquecendo o dólar mundialmente e valorizando as moedas de emergentes, mas as previsões para o câmbio no Brasil seguem cautelosas, mesmo com a queda recente da divisa dos EUA ante o real, de acordo com estrategistas ouvidos pelo Estadão/Broadcast.

Se antes bancos como Credit Suisse, Bank of America e Morgan Stanley alertaram para as chances de a moeda americana superar rapidamente os R$ 6,00 no Brasil no curto prazo, agora algumas casas já falam em cenário um pouco melhor para a moeda brasileira, mas com o dólar ainda na casa dos R$ 5,00 até o final do ano, por conta do fraco crescimento do Brasil em 2020, a tendência de juros caírem ainda mais e o cenário político conturbado. Pelas previsões mais recentes dos bancos, a moeda americana só cairia de forma mais sustentada para o nível de R$ 4,00 em 2021, por conta da retomada mais forte do crescimento econômico.

O Instituto Internacional de Finanças (IIF), formado pelos 500 maiores bancos do mundo, com sede em Washington, relata que a injeção de capital no mercado financeiro vem ocorrendo em níveis jamais vistos. O economista especializado em fluxos internacionais do IIF, Jonathan Fortun, calcula que o Fed já aumentou seu balanço em 70% desde março, comprando US$ 1,6 trilhão em títulos públicos americanos e US$ 500 bilhões em títulos lastreados em hipotecas (MBS, na sigla em inglês), isso fora outras operações, com as compras de commercial papers de empresas. Na Europa, o Banco Central Europeu anunciou na semana passada o aumento de seu programa de compra de ativos em 600 bilhões de euros para 1,35 trilhão de euros.

Nesse ambiente a alta liquidez e taxas de juro muito baixas nos países desenvolvidos, investidores passaram a procurar ativos de risco. O primeiro movimento foi vender títulos do Tesouro americano, porto seguro em tempos de incerteza, e aplicar nas bolsas e nos mercados emergentes, além de títulos de empresas privadas. O Nasdaq bateu recorde histórico esta semana e as moedas de emergentes tiveram um rali, com o real liderando. Na palavras do JPMorgan, o dólar "entrou em colapso".

"A liquidez foi responsável por 90% do rali até agora", avaliam os estrategistas do Bank of America. Recentemente, o banco americano Goldman Sachs passou a apostar contra o dólar, vendo mais espaço para recuperação de outras moedas, como o euro e a divisa da Noruega.

Brasil

Para o Brasil, no entanto, a avaliação sobre os rumos do dólar ainda mostra cautela. O JPMorgan reduziu a previsão para a taxa básica de juros para 1,75% em 2020 e ainda vê a moeda americana em R$ 5,70 em dezembro. Os estrategistas de moedas do grupo financeiro holandês Rabobank elevaram esta semana a projeção para o dólar no final de 2020 de R$ 4,95 para R$ 5,45. A razão do câmbio mais pressionado inclui "incertezas fiscais", além de juros menores e o baixo crescimento econômico. O banco passou a prever contração de 7,3% para o Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil este ano, ante queda de 5,1% estimada anteriormente.

"O real se beneficiou significativamente da melhora recente do sentimento no mercado financeiro internacional. No entanto, o noticiário doméstico permanece preocupante", afirma a analista de moedas do Commezbank, You-Na Park-Heger. Para ela, a valorização do real foi exagerada, veio antes do esperado e há risco alto de correção nas próximas semanas, pois ainda há muitas incertezas sobre a retomada da atividade econômica mundial e, no caso do Brasil, há ainda os juros em queda, preocupação fiscal e o cenário político. O banco alemão projeta o dólar a R$ 5,20 em setembro, R$ 5,00 em dezembro e R$ 4,90 no começo de 2021.

O economista para mercados emergentes da consultoria inglesa Capital Economics, William Jackson, ressalta que os ativos da América Latina, notadamente Brasil e México, foram os mais beneficiados pelo rali provocado pelo aumento da liquidez no mercado internacional. O ritmo foi melhor justamente porque eles foram os que mais sofreram com o avanço da pandemia.

Incertezas

Jackson observa, porém, que há muitas incertezas com o Brasil e a região, que ainda registra expansão importante dos casos de coronavírus. Por isso, as moedas da América Latina devem seguir pressionadas. A Capital Economics projeta o dólar em R$ 5,25 no final do ano, só voltando para a casa dos R$ 4,00 em 2021, quando a economia deve ganhar mais força. Para este ano, a previsão é de contração de 8% do PIB, seguido de alta de 3,5% no ano que vem. Na previsão do canadense Scotiabank, o dólar deve terminar este ano em R$ 5,44 e 2021 em R$ 4,89.

Entre os bancos nacionais, o Itaú manteve a projeção de dólar em R$ 5,75 por dólar em 2020 e R$ 4,50 em 2021. A avaliação do banco é que o risco fiscal ainda elevado, o PIB fraco e os juros baixos devem seguir limitando o fluxo de capitais para o Brasil ao longo deste ano. O economista-chefe do banco, Mário Mesquita, afirmou em live recente que é possível que o dólar fique mais comportado no segundo semestre, em um ambiente global de busca por retorno mais elevado, passada a fase mais grave da pandemia de coronavírus.

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