Carlos Alberto da Silva/ EMBRAPA
Carlos Alberto da Silva/ EMBRAPA

Lista de 'candidatos' à presidência da Embrapa cresce, mas ministra diz não ter pressa na escolha

Tereza Cristina deu maior destaque à necessidade de apresentar 'um novo projeto' para a instituição pública de pesquisa do que propriamente definir quem substituirá Sebastião Barbosa

Clarice Couto, Fabrício de Castro, Gustavo Porto, Leticia Pakulski e Tânia Rabello, O Estado de S.Paulo

16 de agosto de 2019 | 12h52

O setor agropecuário aguarda com expectativa o anúncio do novo presidente da Embrapa mas, aparentemente, o Ministério da Agricultura não tem tanta pressa em apresentar um nome. Em evento em São Paulo, realizado em 5 de agosto, a ministra da Agricultura, Tereza Cristina, deu maior destaque à necessidade de apresentar "um novo projeto" para a principal instituição pública de pesquisa do País do que propriamente definir quem substituirá Sebastião Barbosa, ex-presidente da Embrapa que foi exonerado em 17 de julho e havia sido indicado pelo ex-ministro Blairo Maggi em outubro, de 2018, ou seja, a menos de três meses do fim do governo de Michel Temer.

"Queremos ter um projeto de modernização e fortalecimento da Embrapa. O importante é que ela inteira esteja dentro desse projeto para que, aí sim, tenhamos um nome para presidente [da instituição]", disse a ministra no Congresso Brasileiro do Agronegócio, promovido pela Associação Brasileira do Agronegócio (Abag) e pela B3. "O processo está sendo muito bem conduzido e discutido dentro da própria Embrapa", reforçou, acrescentando que a instituição é a "joia da coroa" do ministério e que, por isso, está "com toda cautela e fazendo várias discussões internamente".

Quem ocupa o cargo interinamente é o engenheiro agrônomo e diretor executivo de Pesquisa e Desenvolvimento da Embrapa, Celso Moretti, fortemente cotado no setor para assumir o cargo de forma definitiva, de acordo com fontes ouvidas pelo Broadcast Agro. No mesmo congresso da Abag, Tereza Cristina elogiou Moretti durante entrevista coletiva, na qual ele também estava presente. Para ela, o interino "está levando muito bem" a Embrapa.

Outro nome presente nas rodas agropecuárias é o de Francisco "Xico" Graziano, ex-chefe de gabinete no primeiro mandato do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e ex-secretário de Agricultura e do Meio Ambiente de São Paulo, conforme apurou o Broadcast Agro. Mas o nome da vez para comandar a "joia da coroa" é o do diretor executivo da Associação Nacional das Indústrias Processadoras de Cacau (Anipc), Eduardo Brito Bastos. Ex-diretor de Relações Institucionais da Dow Chemical Company e ex-presidente do Grupo de Trabalho da Pecuária Sustentável (GTPS), Bastos tem o perfil técnico e de mercado buscado pela ministra. É conciliador e tem trânsito em todos os setores do agronegócio. Moretti e Bastos estão em vantagem, têm suporte para o tão desejado cargo e teriam pouca rejeição para ocupá-lo.

A reportagem apurou também que a ministra iniciou há mais de um mês consultas com lideranças do agronegócio para ouvir sugestões de nomes. Além disso, não se sabe a extensão da influência do chefe da Embrapa Territorial, Evaristo Eduardo de Miranda, no processo de escolha do nome do próximo presidente da estatal. Fontes do agronegócio comentam sobre a grande proximidade do pesquisador com o presidente Jair Bolsonaro, mas acham pouco provável que haja interesse de Miranda em assumir a presidência da Embrapa. Não descartam, entretanto, que ele venha a influenciar a decisão de alguma maneira.

Entre os nomes aventados estão alguns que participaram do processo de seleção junto com Barbosa, no ano passado, como o ex-ministro da Agricultura Luís Carlos Guedes Pinto - descartado por Tereza Cristina por ter integrado governos petistas. "Eu soube que ela já conversou com uma meia dúzia de possíveis nomes, mas não se convenceu por nenhum. E o Moretti já está lá", comentou uma liderança do agronegócio.

Entre outros sugeridos estão o professor sênior de agronegócio Global do Insper e ex-presidente da União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica), Marcos Jank, que também teria sido descartado pela ministra, como adiantou a coluna de Gustavo Porto.

Outro nome que circulou em Brasília é o do secretário de Aquicultura e Pesca do Ministério da Agricultura, Jorge Seif Júnior. Além de ser próximo a Tereza Cristina, ele foi indicado para o cargo de secretário pelo próprio presidente da República, Jair Bolsonaro, amigo da família. Nesta segunda-feira (5), Seif "pediu perdão", em vídeo, pelas multas de R$ 70 mil aplicadas pelo Ibama à empresa de sua família após um flagrante de pesca ilegal de sardinha em Angra dos Reis, no Rio.

Fonte da própria Embrapa, que pediu anonimato, confirmou que a ministra está primeiro definindo o rumo que pretende dar à instituição para então se concentrar nos nomes. "Como ela vai escolher uma pessoa para uma tarefa que você não definiu ainda?", disse. "Dependendo do rumo, você pode dizer: tenho cinco pessoas ótimas, qual é a melhor? A melhor é a que, quando a ministra for apresentar o rumo para essas cinco, apresente a melhor maneira sobre como fazer."

Também há comentários de que teria havido "pressão de São Paulo" pela destituição de Sebastião Barbosa, mas duas fontes do próprio Estado minimizaram a suspeita. "Sebastião Barbosa era um homem de confiança do (ex-ministro da Agricultura) Blairo Maggi, ou seja, da gestão anterior", disse um representante do setor. "E Maggi nomeou Barbosa apenas alguns meses antes de sair", continuou. "Seria natural que a ministra (Tereza Cristina, que o substituiu) trocasse a presidência da instituição."

O próprio Barbosa admitiu, ao Broadcast Agro, não ter sido a escolha preferida de Tereza Cristina, com quem divergiu em uma série de questões. Segundo ele, a ministra sempre foi respeitosa, mas demonstrou "não conhecer a Embrapa". "Ela sempre fazia críticas, que a Embrapa custa muito caro, que não faz nada, que as pessoas não trabalham, o que não é verdade", afirmou. O ex-presidente relatou ainda interferência na escolha de chefes de unidade. "Começou a haver interferência de políticos, pedindo para tirar chefe de tal unidade, colocar chefe em outra unidade, e eu não podia aceitar isso. A Embrapa sempre teve um sistema de escolha de gestores das suas unidades que segue uma norma muito bem estabelecida, baseada em meritocracia."

Fonte de dentro da Embrapa acrescentou que Maggi criou uma "saia justa" com a nomeação de Barbosa já no fim do governo do ex-presidente Michel Temer. "Maggi poderia ter mantido o presidente da Embrapa (na época, Mauricio Lopes, que havia sido escolhido por Dilma Rousseff) até o fim do governo Temer, porque o natural seria este governo (de Bolsonaro) escolher", disse. Segundo a fonte, o ex-ministro poderia ter nomeado um interino, mas preferiu fazer o processo de seleção que culminou na escolha de Barbosa. "Aí ficou uma coisa capenga, porque nomear no fim de mandato um presidente para o próximo governo, fosse qual fosse, é uma coisa muito desconfortável", continuou a fonte.

Presidente do conselho da Embrapa em 2018, à época da escolha de Sebastião Barbosa, o ex-secretário executivo do Ministério da Agricultura Eumar Novacki evitou críticas ao processo de demissão do presidente da estatal pela ministra Tereza Cristina. "Este é um direito da atual gestão. Não acompanhei as discussões ou razões que levaram à troca", esquivou-se Novacki. "Faz parte da rotina de uma nova gestão", emendou.

Ao Broadcast Agro, a ministra reafirmou, por meio de sua assessoria de imprensa, que é preciso "mudar o modelo da Embrapa" e que pretende dar um "novo olhar" para a empresa. Citando a nomeação de Barbosa dois meses antes do fim do governo Temer, disse que o ministério concluiu que precisava fazer a mudança neste momento. Tereza Cristina afirmou que tem respeito por Barbosa mas queria dar outra orientação à empresa. Ela negou que a Embrapa possa ser privatizada e rejeitou rumores de que um general poderia ser indicado para presidi-la.

Ela afirma também que já vinha conversando com a diretoria da empresa sobre a necessidade de mudanças. Isso passa, conforme Tereza Cristina, por uma empresa com mais agilidade e recursos para pesquisas. A ministra afirmou que a empresa tem hoje um orçamento grande, mas 80% vão para o pagamento da folha de funcionários. "O que a gente quer é dar agilidade à Embrapa, enxugar algumas coisas, mexer na área administrativa", disse. "A pesquisa funciona maravilhosamente bem, nós queremos atuar é na gestão da empresa."

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