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Livre mercado: transparente como uma mentira...

Há três anos, o constante declínio da cotação do café está abalando rudemente os grandes países produtores. O índice composto de preços da Organização Internacional do Café (OIC), que ainda era de 1,80 dólar há cinco anos, está hoje em 0,47 cents.Não é de admirar que as regiões produtoras de café tenham afundado em razão da crise - como acontece em Vera Cruz, no Estado de São Paulo, e mais ainda em outras regiões do mundo que, ao contrário do Brasil, não souberam aumentar a produtividade através da mecanização.Este é o caso de Uganda, da Etiópia, de Ruanda e da América Central, sobretudo tendo em vista que o essencial da receita desses países depende do café. Será que estamos aqui diante de um novo malefício desta "globalização" que já causou tantos estragos aos países fracos?Esta é a opinião do diretor da OIC, Nestor Osório. Para ele, não há dúvida: "A liberalização favorece apenas as multinacionais!", proclama Osório no jornal Libération. E prossegue: "Quando as idéias liberais começaram a predominar, o sistema de regulamentação foi rompido: os apóstolos do mercado livre explicaram erroneamente que um aumento da oferta traria consigo uma queda nos preços, mas que, no final das contas, o mercado corrigiria a fraqueza da cotação e impediria a ruína de milhões de cafeicultores. Os fatos demonstram o contrário".Para Osório, os efeitos da globalização têm um nome: anarquia. Em todo o mundo, a produção aumentou 20% na década de 90, enquanto o consumo cresceu apenas 10%. Nesse mesmo período, a receita dos cafeicultores desabou para 5,5 bilhões de dólares, contra 12,5 bilhões na década de 90. Em 50 países, há 25 milhões de famílias rurais que sofrem uma queda dramática de seus rendimentos".Contudo , nunca a indústria cafeeira foi tão rentável quanto hoje. "Sim", comenta Osório. "Mas apenas as multinacionais dos países industrializados estão lucrando com esta rentabilidade. Elas construíram um verdadeiro oligopólio: cinco empresas multinacionais controlam mais da metade da transformação e do comércio do café. O faturamento destas empresas ultrapassa 60 bilhões de dólares, contra 30 bilhões no início da década de 90. Seu poder de negociação é tão grande que elas assambarcam o essencial do valor agregado de toda a rede" do comércio cafeeiro.Osório demonstra que quando alguém paga 3 euros por um café em Champs Elysées, em Paris, o produtor indonésio ou ugandense não recebe nem mesmo um centésimo desses 3 euros! No ano passado 500.000 empregos diretos foram perdidos no México e na América Central. Vamos citar mais um trecho desta queixa feita por Osório em favor dos pobres: "O oligopólio industrial recusou-se a adotar padrões de qualidade em escala mundial. Em conseqüência, o oligopólio paga um preço baixíssimo pelo café de má qualidade. Mas depois o utiliza em misturas e aumenta assim suas margens de lucro a um custo menor. A solução está do lado dos países industrializados: seria preciso eliminar as tarifas aduaneiras sobre o café transformado... Se um colombiano quer exportar para a França uma matéria-prima, como o café verde, ou em grão, as taxas de importação são iguais a zero. Mas, se o mesmo produtor colombiano exportar café solúvel para a França, então as tarifas aduaneiras podem chegar a 30%".Será preciso continuar? Apenas um comentário: este rápido resumo da mecânica do mercado "livre" mostra que a "liberalização" é uma hipocrisia monumental. Na realidade, ao decretarem esta ou aquela regra, os países ricos falseiam a seu favor as regras sacrossantas do mercado. Aliás, os Estados Unidos ou a Europa fazem também a mesma coisa no mercado da carne, por exemplo, favorecendo a produção americana ou européia seja através de taxas de entrada (como nos Estados Unidos), seja através de subsídios agrícolas, como na União Européia, e penalizando conseqüentemente de forma cruel os outros países - além do mais, países essencialmente agrícolas - que se vêem excluídos deste mercado mundial, supostamente livre, flexível e transparente. Transparente como uma mentira...

Agencia Estado,

07 de junho de 2002 | 17h45

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