Denis Ferreira Neto/ Estadão
Denis Ferreira Neto/ Estadão
Imagem Pedro Fernando Nery
Colunista
Pedro Fernando Nery
Doutor em Economia
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Livro de Moro é mais um esforço de relações públicas do que uma análise dos problemas do País

Estratégia é comum no mercado americano: lá, pré-candidatos se apresentam com autobiografias simpáticas. Mas ainda não há nada para ler sobre a economia de Moro

Pedro Fernando Nery*, O Estado de S.Paulo

07 de dezembro de 2021 | 04h00

Gostaria de ter lido mais livros este ano. Tudo bem, não devo ter lido menos livros do que os jurados da categoria reportagem do Prêmio Jabuti. Mas, mesmo assim, queria ter lido mais. Achei, então, que não valeria a pena queimar uma leitura com o livro do Moro, mas a curiosidade me fez ir atrás.

O presidenciável defendeu o pagamento do Auxílio Brasil sem furar o teto de gastos, manifestando-se contrário à PEC dos Precatórios. Mas isso implica corte de dezenas de bilhões em outras despesas. Quais? Daí fui procurar no livro o que ele pensa.

Só que o livro não traz respostas como essa. É mais um esforço de relações públicas do que uma análise aprofundada dos problemas do País, lembrando os lançamentos do mercado americano. Lá é comum que pré-candidatos se apresentem com autobiografias simpáticas.

Reformas na economia são citadas somente de forma genérica. A surpresa positiva é o tratamento dado à corrupção. Muitos artigos de jornais têm discutido se a candidatura Moro daria ênfase exagerada ao tema, que teria sugado oxigênio em excesso no debate público. Apesar do título (Contra o sistema da corrupção) e dos relatos sobre sua vida profissional, Moro não chega a colocar a corrupção como o problema maior do Brasil.

Ela seria apenas uma forma de prevalência dos interesses privados sobre os interesses públicos, mas esta captura ocorreria “com mais frequência” de outras formas – Moro fala em corporativismo e o patrimonialismo. É esta captura do Estado que impediria o crescimento e nos condenaria à pobreza e à desigualdade: diagnóstico que teria como solução a necessidade de novas lideranças.

Para aí. A ausência de detalhes é tal que a reforma tributária, por exemplo, não recebe qualquer menção na obra. Ela é parte fundamental da agenda contra desigualdade. São tantas distorções que alcançam até o setor público, permitindo a quem deveria ser descontado em folha pagar menos Imposto de Renda. Veja que, segundo os dados da Receita, membros do Judiciário e do MP recebem anualmente R$ 200 mil em média isentos de pagar qualquer tributo.

Há ainda no livro quatro menções a bolsa, três sendo à Bolsa de Valores e nenhuma ao Bolsa Família. O papel do programa parece ser subestimado pelo candidato – que nos últimos dias aludiu a ideias antigas, como a de uma dicotomia entre transferências de renda e trabalho (em sua filiação) ou a de que o Bolsa Família foi meramente uma mudança de nome feita pelo PT (em entrevista à CNN).

Ainda não há nada para ler sobre a economia de Moro. 

*DOUTOR EM ECONOMIA 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.