Doug Mills/The New York Times
Doug Mills/The New York Times

Livro de Obama oferece lições valiosas para quem pretende liderar um país como o Brasil

O presidente Jair Bolsonaro está a tempo de lê-lo, se quiser se preparar melhor para um eventual segundo mandato em 2023

Fabio Giambiagi*, O Estado de S.Paulo

10 de setembro de 2021 | 04h00

Li recentemente o livro de Obama Uma terra prometida, publicado pela Cia. das Letras. Deveria ser leitura obrigatória para quem se candidatar ao Planalto em 2022. O livro começa pelas primeiras incursões dele pela política local e cobre o primeiro dos dois governos em que ocupou a presidência dos EUA.

Trata-se de uma leitura agradável, que interessa ao cidadão comum – ou, pelo menos, ao cidadão comum interessado nessas reflexões – e mistura temas densos com pequenas anedotas da vida doméstica. Esse mix permite passar pelas páginas do livro de uma forma algo mais leve do que a contemplação inicial do “tijolo” de 700 páginas sugere. O livro oferece elementos valiosos para quem pretende liderar um país da dimensão do Brasil. O presidente está a tempo de lê-lo, se quiser se preparar melhor para um eventual segundo mandato.

Quem conhece como funciona a política e sabe algo da nossa história percebe que muitas das questões que deixam o atual presidente da República muito irritado são repetições de coisas que sempre estiveram presentes na realidade do País: a pressão da mídia, decisões judiciais das quais o Executivo não gosta, demandas contraditórias da sociedade, chantagens parlamentares etc. Não há nada de novo sob o céu, e esses problemas já “atazanaram” a vida de Sarney, Collor e dos demais presidentes que se seguiram desde a redemocratização do País de 1985.

É interessante acompanhar o pensamento e as tensões de quem exerce o cargo sujeito a outro tipo de pressões, associadas ao papel que os EUA desempenham no mundo. Há questões suscitadas pelo livro que não se aplicam ao Brasil, por se tratar de assuntos próprios de uma grande potência. Outras, porém, fornecem boas lições para quem almeja liderar o Brasil a partir de 2023 – isso vale também para o ex-presidente Lula que, se vencer, governará o País em circunstâncias muito mais difíceis do que as dos “anos dourados” da primeira década do século.

Um dos assuntos mais fascinantes do livro é a reflexão de mais de 50 páginas sobre a reforma do sistema de saúde – apelidada de “Obamacare”. Ela abrange desde a sua motivação até as intrincadas negociações para permitir sua aprovação, passando pelas brigas internas da equipe acerca da melhor estratégia a seguir, pelos vazamentos para a imprensa e pelas dúvidas íntimas do próprio Obama acerca da relação custo-benefício que a reforma estava assumindo. Em momentos de desânimo, ele mesmo parece se perguntar se toda essa briga ainda realmente valeria a pena de ser continuada. Para além do paralelo com questões universais que também afetam o Brasil – custos crescentes do setor, insatisfação com os planos de saúde, importância do tema para milhões de pessoas etc –, há ali todo um paralelo com temas que fatalmente terão de ser encarados por quem estiver sentado na cadeira do “número 1” em 2023. Eles têm a ver com questões-chave de estratégia política, tais como: Que batalhas travar? Quais são os planos B e C se a estratégia A falhar? Que concessões se está disposto a fazer? Quais serão os aliados em cada ponto específico? Qual é a relação custo-benefício de cada concessão? Basta ler meia página sobre a descrição das negociações exasperantes com os 3 ou 4 obscuros parlamentares republicanos que eram vitais para dar segurança de que o projeto passaria, e que começam a pedir coisas completamente desproporcionais para seus Estados ou lobbies específicos, para perceber que o que a nossa imprensa ingenuamente qualifica pejorativamente como “toma lá dá cá” – dando a entender que qualquer troca de favores é algo sujo – é um fenômeno inerente às práticas de qualquer democracia, por mais madura que seja. Vale, a propósito, citar a frase do chefe de gabinete de Obama a ele, num diálogo com o ainda imaturo político dos primeiros meses no cargo: “Fazer salsicha não é bonito, presidente”.

Quem ler o livro certamente estará mais bem preparado para o exercício da função. Vale a pena.

*ECONOMISTA

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