Livro resgata história recente da bolsa de valores brasileira

Em relato breve, mas reflexivo, ex-presidenteda Bovespa conta a experiência de popularizar o mercado

O Estado de S.Paulo

07 de junho de 2014 | 02h01

No 1º de maio de 2001, quem participou da comemoração do Dia do Trabalho, organizada pela Força Sindical, em São Paulo, deparou-se com uma cena inesperada: no meio da festa, num estande armado pela então Bovespa, a Bolsa de Valores de São Paulo, promotores explicavam aos operários e suas famílias os princípios do mercado acionário.

No 1.º de maio do ano seguinte, criou-se o "Bovespa vai à Fábrica", parte de uma campanha que levou a bolsa a lugares até então impensáveis: à escola, ao parque, à praia, ao metrô, ao shopping.

Esses e outros detalhes do trabalho de popularização do mercado acionário, que fez a bolsa bater recordes de lançamentos e compras de ações ao longo da década passada, estão descritos no livro A Força das Ideias para um Capitalismo Sustentável.

O autor, Raymundo Magliano Filho, presidente da Bovespa de 2001 a 2008, não apenas presenciou as mudanças como foi autor de muitas delas. "No mercado de capitais, a cultura é oral e eu quis deixar por escrito a experiência do que foram aqueles anos", diz Magliano.

Apesar de ser breve, o livro faz uma reflexão sobre o simbolismo desse período para a cultura financeira do País. "Numa sociedade como a nossa, baseada no tijolo e na renda fixa, popularizar a ação e o investimento de longo prazo exige a reconstrução de valores", diz.

No livro, Magliano recorre aos filósofos para dar a dimensão das mudanças que foram empreendidas.

Para explicar, por exemplo, o que representou a união, em 2001, de 45 entidades numa mobilização em favor do mercado de capitais, ele cita o filósofo italiano Antonio Gramsci: "Só quem deseja fortemente identifica os elementos necessários à realização de sua vontade".

O capítulo dedicado à construção do Novo Mercado, segmento da bolsa que exige alto grau de transparência das empresas, faz referências ao pensamento filósofo político italiano Norberto Bobbio: "Só a democracia 'desoculta". É por meio da revelação que se pode eliminar "o poder invisível."

O principal recado deixado por Magliano é que a Bolsa pode ser um investimento de risco, mas é essencialmente um espaço para a inclusão quando tem regras claras e acessíveis para a maioria. "Com uma ação, qualquer pessoa pode usufruir do lucro de uma empresa", diz o ex-presidente da Bovespa.

Magliano torce para que a efervescência daquele época volte. "Os tempos são outros, não teríamos espaço hoje para fazer o que fizemos naqueles anos." Mas os números mostram que o legado ficou. Em 2002, a Bolsa tinha 86,2 mil investidores pessoas físicas. Atualmente, mesmo com a crise internacional, são 568,2 mil. / ALEXA SALOMÃO

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