Lixo pode gerar até 440 megawatts

Produção de energia em aterros sanitários ganha impulso; há dez novos projetos em andamento em todo o País

Andrea Vialli, O Estadao de S.Paulo

07 de dezembro de 2007 | 00h00

Crescem no Brasil os projetos de geração de energia elétrica a partir do gás metano que resulta da decomposição do lixo nos aterros sanitários. Há 20 projetos de controle da emissão de metano em aterros em andamento em todo o País, e metade deles está estruturada para geração futura de eletricidade. A cidade de São Paulo produz, desde 2003, 20 megawatts (MW) de energia a partir dos resíduos do aterro Bandeirantes, na região oeste da capital. Um estudo feito pelo Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), da Esalq/USP em parceria com o Ministério do Meio Ambiente (MMA), mostra que, em um cenário conservador, o Brasil, até 2015, pode gerar 356,2 MW de energia elétrica. Em uma perspectiva mais otimista, esse número pode chegar a 440,7 MW. Municípios com população acima de um milhão de habitantes - com grande produção de resíduos - têm um potencial de geração médio de 19,5 MW."Esse potencial existe, e começa a ser despertado à medida que os municípios percebem as vantagens de substituir os antigos lixões por aterros sanitários controlados", explica Ruy Barros, diretor do departamento de mudanças climáticas do MMA. A geração de energia elétrica só pode ser feita em aterros sanitários controlados, que têm estrutura para captação do gás metano e do chorume.Além dos 20MW de eletricidade gerados na termoelétrica instalada no aterro Bandeirantes, a capital paulista se prepara para produzir mais 20 MW a partir de outro aterro sanitário de grandes dimensões, o São João. O aterro, localizado na região leste, recebe 7 mil toneladas de resíduo por dia. A expectativa é de que o maquinário entre em operação já no começo de 2008, e a totalidade da energia entrará no sistema de distribuição da grande São Paulo.O aterro sanitário de Nova Iguaçu (RJ) também vai pôr em operação, em janeiro, uma usina termoelétrica com capacidade para gerar 19 MW de energia. Antes mesmo de a termoelétrica entrar em operação, o biogás produzido na central já vem sendo aproveitado internamente para rodar uma unidade de tratamento de chorume."Todas as grandes capitais estão se mobilizando para transformar aterros em termoelétricas. É viável em municípios com mais de 500 mil habitantes e grande produção de lixo urbano", explica Antonio Carlos Delbin, diretor técnico da Biogás Energia Ambiental, empresa responsável pela operação da usina do aterro Bandeirantes e que vai operar também a usina do aterro São João. CARBONOSegundo Delbin, os projetos de geração de energia a partir do biogás permitem ainda a futura negociação de créditos de carbono no mercado internacional, o que pode ajudar a amortizar os custos de implementação. No caso do aterro Bandeirantes, foi possível fazer duas vendas de créditos de carbono. A mais recente, feita em leilão na BM&F, permitiu à prefeitura de São Paulo faturar R$ 35 milhões. O investimento na usina, feito em 2003, foi de US$ 25 milhões. O Grupo S.A. Paulista, do setor de construção, criou uma unidade específica para gerenciar projetos de geração de energia do lixo, batizada de NovaGerar. A empresa foi a responsável pelo projeto de mitigação de gases de efeito estufa aprovado pela ONU, no aterro de Nova Iguaçu (RJ), que possibilitou a primeira venda de créditos de carbono no mundo. A NovaGerar também opera o aterro Candeias, em Jaboatão de Guararapes, região metropolitana de Recife, que já conta com uma estrutura para captar e tratar o biogás - ele é queimado no local, e deixa de ser lançado na atmosfera. A geração de energia virá em um segundo momento, diz Artur Oliveira, diretor de meio ambiente da NovaGerar. A empresa faz parte do consórcio que vai administrar o aterro Gramacho, que recebe os resíduos do Rio de Janeiro, junto com as empresas Biogás e J. Malucelli. Lá, a expectativa é produzir de 15 a 20 MW, a partir do segundo semestre do ano que vem. "O crescimento no número desses projetos é um fato, uma vez que as prefeituras têm de dar a correta destinação aos resíduos. Além disso, os preços da energia estão em elevação e novas fontes de geração são necessárias ", diz Oliveira.A equiparação dos custos de produção de energia - atualmente a eletricidade produzida nos aterros custa em média 35% mais que a energia hidrelétrica - também daria impulso aos projetos. "A energia produzida a partir do lixo ainda é mais cara do que a usina produzida por hidrelétricas. Por enquanto, ela deve ser considerada mais pelos seus benefícios ambientais do que econômicos, mas isso pode mudar", diz Walter Capello Júnior, secretário geral da Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (Abrelpe). "Há 30 anos, o aproveitamento do lixo para fins energéticos era impensável."INCINERAÇÃOA geração de energia a partir do lixo urbano já é comum nos países desenvolvidos, que não dispõem de grandes áreas para confinar os resíduos. No entanto, esse aproveitamento energético é feio a partir da incineração do lixo, e não da captura do biogás. Em todo o mundo, existem em torno de 600 plantas de geração de eletricidade a partir de resíduos, em 35 países. Essas unidades tratam aproximadamente 170 milhões de toneladas de resíduos urbanos por ano. Só na Europa, a energia produzida em 400 plantas é suficiente para abastecer 27 milhões de pessoas. Esse mercado movimenta em torno de 9 bilhões e deve crescer ainda mais. Uma diretiva da União Européia estabelece meta para que 22,1% da eletricidade produzida nos países venha de fontes renováveis até 2010, bem como 12% do consumo doméstico.

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