Ints Kalnins/Reuters
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Localização, localização, localização

Serviços de mapas digitais ganham espaço e aumentam a corrida de grandes empresas pelo domínio dessa tecnologia

O Estado de S.Paulo

21 de julho de 2015 | 02h03

O mapa mais antigo do mundo, riscado sobre a parede de uma caverna na Espanha há 14 mil anos, fornecia as melhores localizações para a caça. Hoje, as companhias competem entre si pelo controle do futuro da tecnologia usada na elaboração dos mapas. A Nokia, fabricante de equipamentos para telecomunicações, estaria tentando vender sua divisão de mapas digitais, a Here, por US$ 4 bilhões, e, dentro de algumas semanas, poderá anunciar a vencedora entre as várias propostas recebidas.

A Here é uma presa cobiçada porque é uma das três empresas - as outras duas são a Tom Tom, da Holanda, e o Google - que mapearam a maior parte das ruas do mundo inteiro, numa época em que o mapeamento está se tornando mais importante para o futuro do intercâmbio comercial e dos transportes.

Cerca de 80% dos novos carros dotados deste sistema na América do Norte e na Europa usam o sistema da Here. Muitos aplicativos para smartphones utilizam esta tecnologia para localizar lojas e serviços próximos, caso o usuário precise comprar café ou cortar o cabelo.

Fazer mapas confiáveis, fáceis de usar, exige muito tempo e dinheiro. As principais empresas de mapeamento trataram logo de despachar suas frotas de automóveis para gravar as características das ruas com detalhes muito precisos.

A própria Apple, a gigante da tecnologia que costuma dominar os mercados nos quais se estabelece, luta para oferecer um serviço de mapas confiável. Só recentemente ela acrescentou informações sobre transportes públicos aos seus mapas, recurso que o Google oferece há anos. Quando as empresas de tecnologia são postas à venda, raramente atraem um grupo tão diversificado de possíveis compradores.

Companhias como Audi, BMW e Daimler, da Alemanha, aparentemente são as favoritas para a compra da Here - por enquanto, o preço seria o principal problema. Mas é provável que sigam em frente no negócio para não ceder o futuro deste novo campo ao Google, que está investindo pesadamente em automóveis que dispensam o motorista e em um sistema operacional para veículos. Empresas de private equity também se mostraram interessadas. O Uber, uma companhia de serviços de táxis privados, e o Baidu, gigante chinesa da internet, teriam se unido para apresentar sua proposta (embora os boatos mais recentes sugiram que talvez estejam fora da disputa).

Mapeamento e navegação são fundamentais para o Uber, mas os motoristas acham que seus atuais serviços deixam um pouco a desejar porque são elaborados para tomar itinerários mais longos, ou trafegar em ruas onde o trânsito é intenso.

Mais barato. A candidata vencedora pagará muito menos que os US$ 8,1 bilhões que a Nokia pagou pela Navteq, a companhia de mapeamento que se tornou a Here, em 2008, pouco antes do pico da crise financeira. Uma das razões é que, desde então, a tecnologia usada para traçar os mapas digitais se aperfeiçoou e ficou mais barata. Além disso, o Google contribuiu para provocar uma queda dos preços: a companhia faz seus mapas gratuitamente para os consumidores, e mapas baratos para outras companhias. Isso permite que ele se alimente com os dados de que precisa para vender anúncios baseados em localizações e aumentar a lealdade aos seus produtos.

Os serviços de mapas digitais poderão se tornar cada vez mais importantes para todo tipo de empresas, mas como o Google age como uma poderosa força deflacionária a curto prazo, não está claro se o mapeamento em si é um negócio lucrativo. Para que o lucro aumente consideravelmente para empresas concorrentes, o Google provavelmente teria de elevar seus preços.

Não obstante, a demanda por mapas continua em expansão, porque o comércio online depende cada vez mais de uma localização precisa. "Agora, cada quilômetro e cada minuto são importantes do ponto de vista de uma empresa", afirma Shiva Shivakumar da Urban Engines, uma startup que estuda padrões de viagens diárias.

Companhias que trabalham "on demand", como o Uber, crescem quando podem avaliar cuidadosamente a localização de um cliente e indicar rapidamente o caminho ao motorista. Recentemente, o Uber conseguiu engenheiros, câmeras e patentes para mapeamento da Microsoft, para se estabelecer por conta própria, no caso de o Google parar de oferecer seus mapas a empresas que de alguma maneira concorrem com ele. Dentro em breve, o Uber poderá fazer parte desta categoria: no dia 6 de julho, o Waze, companhia de mapeamento de Israel controlada pelo Google, anunciou que está testando um serviço de corridas compartilhadas em Tel-Aviv.

Os mapas se tornarão ainda mais fundamentais se os automóveis que dispensam o motorista se firmarem no mercado, porque precisarão conhecer cada buraco e cada obstáculo de cada rua, praticamente centímetro por centímetro. E, como John Ristevski da Here ressaltou, estarão repletos de sensores que gerarão enormes quantidades de dados em tempo real, ajudando as companhias a elaborar os mapas mais precisos. Nos tempos modernos, os mapas são "coisas vivas", constantemente atualizadas, diz Martin Garner, da empresa de pesquisas CCS Insight.

© 2015 THE ECONOMIST NEWSPAPER LIMITED. DIREITOS RESERVADOS. TRADUZIDO POR ANNA CAPOVILLA, PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM.

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