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‘Lockdown’ da economia vira discussão entre empresários

Recomendada por autoridades de Saúde, quarentena é criticada por Jair Bolsonaro; para cientistas, estratégia é o melhor exemplo para se evitar colapso do sistema de saúde

Renée Pereira, Mônica Scaramuzzo, Eduardo Rodrigues, Giovana Girardi e Cristiane Barbieri, O Estado de S.Paulo

25 de março de 2020 | 14h22
Atualizado 25 de março de 2020 | 22h58

Recomendada pelas autoridades de Saúde e adotada amplamente mundo afora, a quarentena – marcada pelo fechamento do comércio e a indicação de que as pessoas fiquem em suas casas – virou tema de discussão entre os empresários brasileiros – mesmo que os cientistas apontem a estratégia como a de maior sucesso até agora no combate ao novo coronavírus. Na terça, em pronunciamento em rádio e televisão, o presidente Jair Bolsonaro voltou a criticar o que chamou de “confinamento em massa” e seus efeitos sobre a economia, dando munição a quem defende um relaxamento do confinamento.

Mas, no empresariado, há opiniões e posturas distintas sobre o lockdown (fechamento) total da economia. Com experiências prévias de terem fábricas fechadas na China, o que evitou impactos maiores entre os funcionários, Marcopolo e Randon perceberam que teriam de estender a medida para o Brasil e se uniram na decisão de levar adiante o plano de suspensão temporária da produção. Num primeiro momento, os funcionários terão 20 dias de férias coletivas e, caso seja necessário, entrarão em banco de horas. A exemplo do que aconteceu na China, há contingência para uma parada maior (ver mais ao lado). 

Outra parte do empresariado acredita que em mais duas ou três semanas será possível começar uma flexibilização em algumas áreas, incluindo o comércio. Mas há também quem ache que, mesmo neste momento mais crítico da doença no País, não poderia haver um fechamento total dos estabelecimentos e que o efeito da falência das empresas será devastador para as camadas mais pobres da população. Para todos os grupos, a economia brasileira vai sofrer e terá dificuldades na retomada.

Segundo os especialistas de saúde, no momento atual da pandemia, em que a doença segue em franco crescimento em muitos locais do planeta, é difícil avaliar quais estratégias poderiam funcionar além das já adotadas por outros países. O melhor exemplo acaba sendo o da China, onde tudo começou – e, até o momento, o único local que conseguiu conter a transmissão local do vírus. Também é considerada bem-sucedida a estratégia da Coreia do Sul. Na primeira, houve fechamento de tudo, na segunda, testagem em massa.

Prejuízo

Um estudo encomendado pela Confederação Nacional de Serviços (CNS) mostra que os efeitos da pandemia do coronavírus e de restrições ao funcionamento de diversas atividades econômicas podem levar a um prejuízo de mais de R$ 320 bilhões à economia brasileira e fazer com que 6,5 milhões de trabalhadores percam seus empregos.

Mas, segundo o presidente da CNS, Luigi Nese, os números não devem ser usados para fazer alarde ou para serem contrapostos a estratégias para conter o avanço da doença. “O intuito do estudo é mostrar o que uma paralisação de 60 a 90 dias pode causar na economia. Encomendamos os dados para prepararmos empregadores, trabalhadores, governo e Justiça para um debate que nos leve a uma solução pós-crise. Independente de um prazo mais curto ou mais longo no enfrentamento da covid-19, é preciso unir esforços para que a economia se recupere após esse processo”, afirma.

Médio prazo

Para alguns empresários, apesar de o isolamento neste momento ser fundamental, é preciso começar a pensar em soluções para o médio prazo. O presidente da Racional Engenharia, Newton Simões, diz que, neste momento, o País está vivendo um período de pânico, o que é compreensível. “Espero que na próxima fase, dentro de duas ou três semanas, venhamos a entender que a parada é insustentável. Então, medidas devem ser tomadas, com responsabilidade e empatia, para negociações que nos permitam voltar a funcionar.” 

O dono do grupo Varanda de restaurantes, Sylvio Lazzarini, afirma que, neste momento, não há como não haver uma paralisação para tentar frear o avanço do vírus. “As medidas foram duras e necessárias”, afirma. Ele acredita, entretanto, que em mais 15 dias será possível iniciar medidas de flexibilização para o funcionamento dos estabelecimentos. “Restaurantes, por exemplo, poderiam funcionar, mas não na sua capacidade máxima, e com mesas mais distantes umas das outras.”

O presidente da construtora Vitacon, Alexandre Frankel, também defende uma solução moderada para manter as atividades. Segundo ele, que também é vice-presidente do Sindicato da Habitação (Secovi-SP), as orientações gerais do setor, em conjunto com o sindicato dos trabalhadores, foi de não parar as obras. “Entende-se que tem um ambiente mais seguro, que são mais abertos, sem grandes aglomerações. Estamos seguindo essas orientações.”

Há, porém, também quem defenda que a flexibilização deve ser imediata. O empresário Junior Durski, dono da rede paranaense de hamburguerias Madero e apoiador do presidente Bolsonaro, é um dos maiores críticos ao fechamento da economia. “Fecham a feira ao ar livre e as pessoas têm de ir comprar no supermercado fechado. Os caminhoneiros precisam transportar remédios e alimentos, mas os restaurante da Dutra (rodovia) estão todos fechados. Não faz sentido esse fechamento total.”

Vivência na China marcou atuação de múltis brasileiras

Preocupadas com o impacto que causariam nas cidades em que atuam, duas das maiores multinacionais brasileiras, Randon e Marcopolo, ambas com sede em Caxias do Sul (RS), decidiram agir em conjunto nas medidas contra o coronavírus. 

Assim, lideranças da fabricante de carrocerias de ônibus e da produtora de autopeças e implementos rodoviários combinaram a estratégia para paralisar a produção, adotada desde segunda-feira. “Trocamos informações práticas, para a tomada de decisão em conjunto”, diz Rodrigo Pikussa, diretor da divisão Negócio Ônibus Brasil da Marcopolo. 

Só em Caxias do Sul, principal município na Serra Gaúcha, com 500 mil habitantes, a Marcopolo tem 8 mil pessoas trabalhando em duas fábricas. A Randon tem outros 8.500 funcionários. Com os empregos indiretos, cada uma delas movimenta entre 12 mil e 13 mil pessoas todos os dias em suas operações. Em outras palavras, a parada significou não só colocar em casa cerca de 5% da população da cidade, mas também provocar efeitos sobre a movimentação do comércio e do serviço locais e a previsão de arrecadação de impostos.

“Juntamos nossas equipes técnicas e fomos adotando medidas, que culminaram com a suspensão da produção”, afirma Daniel Ely, diretor de recursos humanos e planejamento da Randon. 

A experiência chinesa trouxe aprendizados também para a retomada. “Passamos a entender melhor como tornar um ambiente mais seguro”, diz Ely. “Entendemos que precisaremos ter mais espaço entre as pessoas na hora em que a produção voltar e que provavelmente haverá a necessidade do uso de máscaras e do controle de temperatura das pessoas.”

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