China Daily/Reuters
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Lockdowns na China devem atrapalhar ainda mais as cadeias de suprimentos globais

Aumento nas infecções pela variante Ômicron levou as autoridades chinesas a confinar pessoas, fechar fábricas e interromper o tráfego de caminhões, prejudicando as já fragilizadas cadeias de suprimentos

Keith Bradsher, The New York Times

15 de março de 2022 | 19h02

PEQUIM – Caminhões estão sendo atrasados, pois seus motoristas precisam ser testados. Os preços dos contêineres estão aumentando conforme os navios esperam por longos períodos nos portos. E os produtos estão se acumulando nos armazéns.

Enquanto as autoridades chinesas lutam para conter o pior surto de covid-19 no país desde o início de 2020, elas estão impondo lockdowns e restrições que estão adicionando caos às cadeias de suprimentos globais. As medidas na China, lar de quase um terço das fábricas do mundo, estão interrompendo a produção de produtos acabados, como carros da Toyota e da Volkswagen e de iPhones da Apple, e também de peças como placas de circuito e cabos de computador.

Na terça-feira, os casos de covid-19 chegaram a mais de 5 mil novas infecções em todo o país. O número é pequeno quando comparado ao de muitos outros países grandes. Mas a China adotou uma estratégia de tolerância zero aos surtos, que exige bloqueios totais rígidos, testagem em massa e quarentena em instalações do governo. Como várias das maiores cidades industriais do país estão atualmente enfrentando surtos, tais medidas estão afetando as fábricas e as redes de transporte que são a espinha dorsal da produção da China – e da economia global.

Depois do aumento na semana passada, o preço do petróleo caiu cerca de 5% no início das negociações na segunda-feira, em parte devido aos temores de uma desaceleração econômica na China. E os danos à economia global já causados pela alta dos casos de covid-19 na China – e pela resposta implacável do governo – podem piorar.  

As autoridades em Pequim e uma lista cada vez maior de cidades e províncias dizem que o vírus ainda está se propagando e que o governo deve tomar medidas cada vez mais severas para detê-lo.

“Recentemente, epidemias locais em grupos ocorreram em muitos lugares em nosso país, sobretudo da variante Ômicron, que se espalhou de forma rápida e não muito evidente”, disse Mi Feng, porta-voz da Comissão Nacional de Saúde da China, na terça-feira. “A prevenção e o controle da epidemia estão mais difíceis e a situação é grave e complicada.”

Na província de Jilin, no nordeste da China, que tem a maior concentração de casos recentes, assim como muitas fábricas produzindo carros e peças automotivas, Zhang Li, vice-diretor da agência de saúde provincial, disse que os moradores e as autoridades teriam que “se mexer e agir urgentemente para superar as dificuldades com determinação – estamos correndo contra o tempo”.

Para alguns investidores estrangeiros, o surto em si talvez seja menos preocupante do que a imprevisibilidade das medidas do governo. “O risco comercial na China agora é maior do que em qualquer outro momento desde o fim da primavera de 2020”, disse Julian MacCormac, presidente da Câmara de Comércio Britânica na China.

Os lockdowns também interromperam o trabalho em fábricas de eletrônicos no sul do país e em uma ampla gama de empresas industriais no centro da China. Cidades próximas a Xangai fecharam as saídas das rodovias ou passaram a exigir que todos os motoristas apresentassem um resultado negativo do exame PCR — requisitos que também levaram ao surgimento de filas de quilômetros de caminhões tentando transportar peças cruciais entre as fábricas.

Os altos custos do transporte internacional, um grave problema em 2021 que contribuiu para a inflação nos Estados Unidos, começaram a subir outra vez após uma queda durante o feriado do Ano Novo chinês no mês passado.

O preço para enviar um contêiner de mercadorias da Ásia para a costa oeste dos EUA subiu para US$ 16.353 na última sexta-feira, antes das recentes restrições contra a covid-19 entrarem em vigor; na semana anterior, ele era de US$ 16.155.  As tarifas quase triplicaram em relação a um ano atrás e aumentaram 12 vezes em comparação a 2020, de acordo com os dados da Freightos, plataforma para reservas de transporte internacional de cargas.

Os portos na China agora exigem que os trabalhadores vivam e trabalhem nas docas por até dois meses sem sair de lá, ficando longe de suas famílias para evitar infecções. Isso permitiu que os portos continuassem funcionando mesmo durante surtos prolongados, um contraste em comparação com os graves atrasos no transporte de cargas na primavera e no verão de 2021, quando as infecções forçaram o longo fechamento de grandes terminais de contêineres em Shenzhen e nas proximidades de Xangai.

Mas com o tráfego de caminhões para as docas interrompido, os navios estão enfrentando atrasos nos portos de pelo menos 12 horas e podem, em breve, ter que esperar até duas semanas, disse Julie Gerdeman, CEO da Everstream Analytics, empresa que monitora e avalia cadeias e suprimentos.

“Até mesmo as empresas mais preparadas serão impactadas por esses novos bloqueios totais na China, pois a flexibilidade dentro da cadeia de suprimentos é mínima”, disse ela.

O transporte aéreo de cargas também está enfrentando novas complicações.

A Administração de Aviação Civil da China disse na terça-feira que muitos dos voos internacionais remanescentes para o gigantesco aeroporto de Pudong, em Xangai, seriam redirecionados para outras cidades chinesas a partir da próxima segunda-feira (22) até 1º de maio. A medida liberaria acomodações para realização de quarentena em Xangai pelos moradores da cidade expostos ao vírus, mas atrasaria ainda mais as exportações.

Pelo menos cinco grandes cidades estão com fábricas completamente paralisadas por causa da covid-19: Dongguan e Shenzhen, no sul da China, perto de Hong Kong, onde a Foxconn tem enormes fábricas para produzir iPhones e outros produtos da Apple; Changchun e Jilin, na província de Jilin, nordeste da China; e Langfang, nas proximidades de Pequim.  Algumas cidades menores também entraram em lockdown, como Suifenhe e Manzhouli, na fronteira da China com a Rússia.

Em Dongguan, uma cidade industrial com 7,5 milhões de habitantes, alguns donos de fábricas disseram que elas ainda estavam autorizadas a funcionar desde que os trabalhadores ficassem confinados nos dormitórios dentro dos complexos das fábricas, sem autorização para ninguém sair ou entrar.

Deng Shiwen, proprietário de uma pequena fábrica de materiais para embalagens em Dongguan, disse que dezenas de seus funcionários ainda estavam vivendo e trabalhando dentro das instalações, mas ele não conseguia enviar nada para os clientes.

“Por enquanto, vou apenas deixar o que acabou de ser produzido aqui”, disse ele.

Outras cidades, de modo especial Xangai, não declararam bloqueios totais em toda a cidade, mas impediram o acesso, pelo menos temporariamente, a tantos bairros, shoppings e parques industriais que as empresas estão incentivando os funcionários a trabalhar de casa o quanto for possível.

A cada hora, da segunda para a terça-feira, a lista de empresas anunciando que sua produção seria interrompida devido aos lockdowns crescia. Toyota e Volkswagen pararam suas unidades de montagem e outras fábricas em Changchun. O mesmo aconteceu com uma fabricante de placas de circuitos impressos, a Unimicron Technology, em Shenzhen, e com a Global Lighting Technologies, que produz diodo emissor de luz (LED), em Xangai.

Algumas empresas, como a Foxconn, disseram que tentariam transferir a produção para outras fábricas. Mas Mary E. Lovely, membro sênior do Instituto Peterson de Economia Internacional, disse que parecia “difícil de acreditar” que a Foxconn teria margem disponível em suas outras instalações para conseguir acomodar as vastas operações da empresa perto de Hong Kong.

No fim, a Foxconn e outras empresas provavelmente vão priorizar alguns grandes clientes, como a Apple. “Então vamos ver o mesmo que já foi visto antes, ou seja, as empresas menores que dependem dessas peças e equipamentos importados da China serão afetadas”, disse Mary.

“Sabemos que a China vai fazer tudo que puder para manter isso sob controle. A questão é quem é mais forte: o governo chinês ou o vírus”, disse ela. “Sabemos que a Ômicron é um adversário bastante desafiador.”

Ana Swanson, Li You e Joy Dong contribuíram com a reportagem e a pesquisa. / TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

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