Tiago Queiroz/ Estadão
Tiago Queiroz/ Estadão

Longo período de quarentena branda é pior para PIB do que isolamento rígido, diz IFI

Um mês de redução de 70% da atividade tira 1,39 ponto porcentual do PIB no ano; já com o índice de isolamento atual, um mês de redução de 35% tem impacto negativo de 0,70 ponto porcentual, mas é insuficiente para frear contaminações

Idiana Tomazelli, O Estado de S.Paulo

22 de março de 2021 | 20h51

BRASÍLIA - Um longo período sob regras brandas de distanciamento pode causar mais prejuízos à atividade econômica do que um isolamento social severo, mais capaz de frear a circulação do novo coronavírus em espaço mais curto de tempo. É o que mostram simulações feitas pela Instituição Fiscal Independente (IFI) do Senado Federal, que estimou o impacto das medidas de distanciamento sobre o Produto Interno Bruto (PIB).

O órgão projeta hoje um crescimento de 3% na economia brasileira em 2021, após o tombo de 4,1% observado no ano passado. Nas últimas semanas, porém, o agravamento da pandemia de covid-19, com explosão de número de casos e mortes, e a demora na vacinação têm levado diversos economistas e agentes do mercado financeiro a prever um desempenho mais tímido da atividade.

Cientistas afirmam que apenas uma taxa de isolamento social na casa de 70% pode reduzir o número de casos e conter a grave situação dos hospitais. Na semana passada, porém, esse índice ficou entre 30,3% e 42,8% nos Estados brasileiros, segundo dados do Monitor Estadão/Inloco. Na média do País, a taxa ficou em 34,4%.

As simulações da IFI não consideraram diretamente a taxa de isolamento, mas sim o porcentual de paralisação da atividade produtiva, conforme o número de semanas.

De acordo com os dados, um mês de redução de 70% da atividade tira 1,39 ponto porcentual do PIB no ano. Nesse cenário, o crescimento do País seria de 1,6%.

No cenário mais próximo do índice de isolamento atual, um mês de redução de 35% na atividade tem impacto negativo de 0,70 ponto porcentual no PIB. O problema é que um isolamento de 35% é, segundo os cientistas, insuficiente para frear as contaminações. Com isso, as medidas mais restritivas acabam se prolongando no tempo, impulsionando o prejuízo na economia.

Considerando a mesma redução de 35% na atividade, o impacto no PIB vai crescendo para –1,39 ponto porcentual com dois meses de distanciamento, -2,08 pontos porcentuais em três meses e -2,77 pontos porcentuais em quatro meses. Nesse extremo, o crescimento esperado para este ano seria praticamente todo anulado, podendo até virar uma recessão se forem necessários mais meses de distanciamento.

“O mais urgente neste momento, e isso já estava claro há bastante tempo, continua a ser a vacinação. Sem uma imunização ampla da população, corremos o risco de perder também o segundo semestre. É preciso ter claro que só haverá normalização da economia e melhora do emprego e da renda, de maneira consistente, quando for possível abrir mão das medidas restritivas. Isso está longe, infelizmente, de ser a realidade do presente”, alerta o diretor-executivo da IFI, Felipe Salto.

O impacto de uma paralisação na atividade é sempre crescente com o passar do tempo, em qualquer faixa de redução. A diferença está na eficácia de um isolamento seguido com mais rigidez. Embora mais drástico, ele pode ser necessário por menos tempo, o que faz com que o saldo final seja menos negativo do que uma quarentena mais flexível, mas também mais duradoura.

O infectologista Julio Croda, pesquisador da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), que também é professor da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul (UFMS) e da Escola de Saúde Pública de Yale, explicou na semana passada ao Estadão que duas semanas de ‘lockdown’, com isolamento acima de 70%, seriam suficientes para frear a transmissão rápida da doença. “Só acima de 60% que tem a taxa de contágio abaixo de 1 com queda lenta e progressiva. Com 50%, não tem aceleração, mas não tem redução. É estabilidade com platô elevado”, disse.

Nos últimos dias, governadores precisaram endurecer ou prorrogar medidas de isolamento diante da baixa adesão ao isolamento e da ausência de sinais de trégua no avanço da doença. O governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite (PSDB), liberou prefeitos para retomar a “cogestão” da crise, que permite algumas flexibilizações locais, mas por outro lado prorrogou restrições a atividades não essenciais até 4 de abril. No Distrito Federal, o governador Ibaneis Rocha (MDB) estendeu por mais uma semana as medidas restritivas, até 28 de março, diante do colapso na rede hospitalar.

No ano passado, um artigo de economistas do Federal Reserve, o banco central dos Estados Unidos, já havia apontado indícios favoráveis a uma quarentena mais rígida. Os especialistas analisaram a estratégia de combate à pandemia da gripe espanhola em 1918 – embora tenha ocorrido há um século, ela tem sido considerada como a única “comparável” ao momento atual.

“Cidades que intervieram mais cedo e de maneira mais agressiva não tiveram performance pior, pelo contrário, elas cresceram mais rápido após o fim da pandemia. Nossos achados indicam que intervenções não farmacêuticas não só reduzem a mortalidade, mas também mitigam as consequências adversas da pandemia sobre a economia”, diz o estudo, que analisou o desempenho de 43 cidades norte-americanas.

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