Werther Santana/Estadão
Construção de prédios residenciais na zona norte de São Paulo: mercado imobiliário da capital se recupera das perdas da quarentena. Werther Santana/Estadão

Setor imobiliário tem alta de 56% no lucro e projeta novo ciclo de expansão

As 14 maiores empresas com ações na B3 tiveram, juntas, um ganho de R$ 721 milhões no 3º trimestre; juros baixos e maior oferta de crédito devem garantir novo ciclo de crescimento

Circe Bonatelli, O Estado de S.Paulo

18 de novembro de 2020 | 05h00

A temporada de balanços do terceiro trimestre mostrou que as incorporadoras listadas na Bolsa de Valores de São Paulo (B3) tiveram rápida recuperação após a paralisação de negócios no primeiro semestre por conta da quarentena – com alta de lançamentos, vendas, receita e lucro. O desempenho forte surpreendeu analistas do setor, que apontam para o começo de um novo ciclo de expansão do mercado imobiliário.

As 14 maiores incorporadoras com ações negociadas na B3 tiveram, juntas, lucro líquido de R$ 721 milhões no terceiro trimestre de 2020, 56% a mais do que no mesmo período de 2019. O levantamento contabiliza os balanços de Cyrela, Cury, Direcional, Even, Eztec, Gafisa, Helbor, Mitre, Plano & Plano, MRV, RNI, Tenda, Tecnisa e Trisul.

Os empreendimentos lançados por esse grupo tiveram valor geral de vendas estimado em R$ 8,1 bilhões no trimestre, alta de 36%, enquanto as vendas líquidas totalizaram R$ 7,5 bilhões, um avanço de 45%. De um lado, os juros baixos e a maior oferta de crédito têm estimulado a compra de imóveis para moradia ou investimento. Já os números das empresas mostram que há dinheiro em caixa e terrenos para construção.

“A aceleração nas vendas foi surpreendente, dado o cenário de pandemia”, diz o analista Raul Grego, da Eleven Financial. “Os números dos balanços foram animadores: todas as incorporadoras apontaram perspectivas de crescimento.” Para ele, o mercado seguirá em alta no fim deste ano e ao longo do próximo.

Metas

Com a recuperação dos negócios, algumas companhias se sentiram confiantes para divulgar metas de lançamentos para o biênio 2020-2021. A Tecnisa divulgou meta de crescimento pela primeira vez desde 2011, quando esse tipo de comunicação foi suspenso devido às crises do País e da própria empresa. Agora, prevê lançar entre R$ 1,2 bilhão e R$ 1,5 bilhão em projetos até o fim de 2021. Se isso se concretizar, representará a retomada do crescimento da incorporadora, que neste ano lançou um único empreendimento.

“Estamos tranquilos em dar um guidance (meta oficial, no jargão do mercado) de novo. Temos um banco de terrenos robusto, dinheiro em caixa e taxas de juros baixas, ao contrário do passado, em que não tínhamos esses confortos. Estamos confiantes em dizer que vamos executar”, afirma o diretor de relações com investidores da companhia, Flávio Vidigal.

Já a Eztec considera até mesmo a possibilidade de revisão para cima em sua meta de lançamentos, diante do cenário considerado promissor. “Se a velocidade de vendas for superior ao estimado ao longo do próximo ano, é possível começar a lançar mais fases dos empreendimentos e antecipar projetos dos anos posteriores”, afirma o diretor de relações com investidores, Emílio Fugazza.

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Setor imobiliário quer espantar 'erros do passado' na hora de lançar novos projetos

Analistas veem melhor base de crescimento, com dívidas em queda e boa carteira de terrenos; no passado, incorporadoras iniciaram corrida para lançar empreendimentos e ficaram sem os materiais necessários

Circe Bonatelli, O Estado de S.Paulo

18 de novembro de 2020 | 05h00

Os analistas veem uma diferença importante entre o atual ciclo de recuperação do mercado imobiliário e o anterior, uma década atrás. Desta vez, as incorporadoras têm chance de crescer de maneira mais organizada, com melhor endividamento e sem “repetir os erros do passado”.

No ciclo anterior, as empresas atraíram bilhões de reais via ofertas de ações em Bolsa e iniciaram uma corrida para lançar projetos. Resultado: houve falta de materiais de construção, atrasos de obras, estouros de orçamentos e cancelamentos de vendas – e tudo isso se traduziu em prejuízo nos trimestres seguintes.

“As empresas aprenderam muito com os erros do ciclo passado”, diz o analista de construção civil do BTG Pactual, Gustavo Cambauva. Uma das diferenças, segundo ele, é que as incorporadoras deixaram de terceirizar a gestão dos empreendimentos – atalho adotado no passado como forma de acelerar o crescimento. “Hoje, são as próprias empresas que estão à frente da engenharia e das vendas”, diz.

Outro ponto é que as empresas compraram novos terrenos de forma gradual nos últimos anos e, atualmente, têm estoque suficiente para abastecer lançamentos de curto a médio prazo. “Isso dá mais seletividade. Não vão comprar terrenos em qualquer lugar a qualquer custo”, afirma Cambauva.

Por fim, os balanços das incorporadoras também mostraram redução do endividamento. A dívida líquida consolidada das 14 maiores companhias listadas na Bolsa de Valores de São Paulo (B3) era de R$ 2,2 bilhões no terceiro trimestre de 2019 e foi revertida para um caixa líquido de R$ 1,2 bilhão no mesmo período deste ano.

'Alertas'

Ainda assim, os analistas citam alguns pontos de “alerta”. O principal deles no curto prazo tem sido o aumento nos custos dos materiais de construção, por conta do desequilíbrio entre oferta e demanda em meio à pandemia. Houve uma parada brusca da indústria por causa da quarentena e, na sequência, uma retomada muito rápida após a flexibilização – o que gerou desabastecimento e alta dos preços de alguns produtos.

A maioria dos empresários e analistas afirma que esse efeito deve ser transitório e concentrado na cidade de São Paulo, que está mais aquecida – ao contrário do passado, quando houve alta generalizada. A expectativa é que haja uma normalização na capacidade da indústria de materiais, embora isso ainda deva levar alguns meses, de acordo com o analista Daniel Gasparete, do Credit Suisse.

“Os investimentos feitos para aumentar a capacidade podem não ser rápidos o bastante para atender à demanda crescente das incorporadoras no próximo ano”, diz. Como consequência, as empresas terão de lidar com reajustes no preços dos imóveis aos consumidores ou perda de margem de lucro, prevê Gasparete.

Outro potencial gargalo para o crescimento do mercado imobiliário está em uma possível deterioração da economia brasileira, após o fim do auxílio emergencial e das medidas de preservação dos empregos, afirma Raul Grego, da Eleven. “Se tem algo que traz relativa insegurança ao setor, é a taxa de desemprego, que pode subir no ano que vem e reduzir o número de compradores de imóveis. Por isso, é preciso manter a cautela.”

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