Edgard Garrido/ Reuters
Edgard Garrido/ Reuters

Santander Brasil vê espaço para crédito em ano incerto e quer Getnet na Bolsa no 3º trimestre

Banco registrou lucro líquido de R$ 3,958 no quarto trimestre de 2020, 6,22% a mais que um ano antes; empresa de maquina passa por processo de governança antes de abertura de capital

André Ítalo Rocha e Aline Bronzati, O Estado de S.Paulo

03 de fevereiro de 2021 | 09h46

Após expandir o crédito para pessoa física no último trimestre de 2020, com reforço em linhas de menor risco, o Santander Brasil entra em 2021 na mesma toada e vê espaço para crescimento dos empréstimos, apesar das incertezas que rondam a economia. A aposta está na demanda reprimida e em ventos a favor que devem chegar do exterior, o que deve resultar em uma retomada mais consistente no segundo semestre, nas expectativas do banco. Enquanto isso, o Santander corre para avançar em outros negócios e espera ter a Getnet emancipada e listada na Bolsa até o terceiro trimestre.

Em balanço divulgado nesta quarta-feira, 3, a subsidiária brasileira do banco espanhol registrou lucro líquido de R$ 3,958 bilhões, alta de 6,22% em relação a um ano antes. Com tal desempenho, o Santander Brasil galgou um feito inédito, ao responder por 30% do resultado global anual do conglomerado espanhol. A fatia vem crescendo. Em 2019, era de 28% e de 26% em 2018.

O avanço foi possível a despeito dos reflexos econômicos, com desvalorização do real frente às principais moedas do mundo, e ainda o impacto da covid-19 nos negócios. "Contribuímos com 30% ou um terço do resultado do grupo com muito trabalho", disse o presidente do Santander Brasil, Sergio Rial, em conversa com a imprensa.

O mercado gostou do resultado. No começo da tarde as ações do Santander Brasil tinham alta de 1,83%, cotadas a R$ 41,72.

No balanço, o banco ressalta que o último trimestre do ano passado - marcado pela reabertura gradual da atividade econômica após meses de isolamento social mais duro - se destacou pelo aumento dos empréstimos para pessoa física. Houve maior concentração em linhas que contam com alguma garantia, como veículos, imobiliário e consignado - que passaram a representar três quartos da carteira de crédito.

Segundo Rial, o Santander Brasil soube capturar bem esse momento de reabertura, mas lembrou que 2021 traz consigo algumas barreiras, como o fim de estímulos do governo às linhas de crédito, novas restrições ao comércio e dúvidas sobre a velocidade do processo de vacinação dos brasileiros. Para ele, o primeiro semestre tende a ser similar ao que foi o ano de 2020. Ele acredita, porém, que a segunda metade do ano deve experimentar uma recuperação mais firme.

Seja como for, a estratégia para o crédito segue a mesma em 2021, afirmou, quando questionado sobre a possibilidade de o banco elevar a participação dos empréstimos com garantia. "Não muda nada. A estratégia está muito bem definida, com qualidade da execução, e tudo isso representa um custo menor para o consumidor final", disse.

Para ele, a crise causada pela pandemia, que paralisou a economia, gerou uma repressão da demanda, que pode ser um impulso para a expansão da carteira em 2021, mesmo com as dificuldades macroeconômicas. "As pessoas estão voltando a necessitar de capital de giro, seja para autônomos, ou para a atividade como um todo", afirmou.

A inadimplência - em geral apontada pelo mercado como uma das principais preocupações para este ano, em razão das renegociações feitas na pandemia - segue, por enquanto, sob controle. No Santander, o índice para atrasos superiores a 90 dias não se alterou no quarto trimestre e continua em 2,1%. A taxa para períodos mais curtos, de 15 a 90 dias, que poderia sinalizar alguma tendência de piora, foi pelo caminho contrário e caiu para 2,8%, de 3,1% no trimestre anterior.

Para os analistas Jörg Friedemann e Gabriel D. Nóbrega, do Citi, o Santander espera que a qualidade dos ativos se deteriore nos próximos meses, à medida que os prazos de carência expiram. "Isso depende da situação macroeconômica e da evolução da pandemia", afirmam, em relatório distribuído ao mercado após a publicação do balanço.

Getnet e agências

Enquanto aguarda a retomada da economia, o Santander Brasil se prepara para concretizar a emancipação da Getnet, negócio de maquininhas, e depois listá-la na Bolsa. A expectativa é que o processo de governança interna seja concluído no primeiro trimestre e a companhia possa abrir capital no terceiro trimestre, logo após a aprovação do Banco Central (BC). "Não estamos vendendo a Getnet. Seremos detentores de uma nova ação da Getnet. Não há venda por parte dos sócios", disse Rial.

Sem metas para fechamento de agências e corte de pessoal, o Santander Brasil planeja continuar se expandindo pelo interior do Brasil. No ano passado, o banco fechou as portas de 175 unidades e demitiu 3.220 funcionários. 

Depois do Ceará, o alvo para novas unidades é a Região Norte do País. A ideia é ampliar sua presença com a abertura de dez a 15 agências - chamadas de lojas pela organização, priorizando mão de obra local e culturas sustentáveis.

"Não somos um tema de infraestrutura física. Vamos seguir racionalizando onde há sobreposição, principalmente nos centros urbanos e com o processo de digitalização..." Queremos um Santander com a cara da Amazônia, de Rondônia. Também estamos expandindo em  Mato Grosso, dada a nossa pegada agro", afirmou Rial.

Mundo

Ao traçar perspectivas globais, em uma tentativa de entender quais serão os ventos de 2021, o presidente do Santander Brasil disse que o planeta está mais endividado. Para ele, contudo, que o Brasil está bem posicionado para surfar a demanda crescente das principais economias da Ásia por commodities. Disse que há dúvidas sobre como será o novo governo dos Estados Unidos, mas frisou que a Europa deve ter um boom de consumo represado em meio ao processo de vacinação, que ocorre de maneira mais rápida, em especial na Inglaterra.

O risco, segundo Rial, está na inflação. "Estamos vivendo um período deflacionário há 15 anos e começam a existir certas reflexões sobre se essas injeções de liquidez, por razões óbvias, não podem lá na frente trazer inflação, gerando reversão nas taxas de juros", afirmou.

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