Lugo quer iniciar revisão do Tratado de Itaipu ''o mais rápido possível''

Presidente eleito do Paraguai vai formar equipe técnica para analisar preço real da energia produzida pela usina

Ariel Palacios, O Estadao de S.Paulo

22 de abril de 2008 | 00h00

O ex-bispo católico Fernando Lugo, presidente eleito do Paraguai, declarou ontem que espera uma reunião "o mais rápido possível" com o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva para iniciar o diálogo sobre a revisão antecipada do Tratado de Itaipu. Lugo pretende conseguir o que denomina de "preço justo" para as tarifas que o Brasil paga ao Paraguai pela energia elétrica que o país não consome e repassa como excedente ao mercado brasileiro. Durante a campanha, Lugo havia dito que o Paraguai reenviava a energia ao Brasil "a preço de custo" e não "a preço de mercado".Em declarações aos jornalistas brasileiros, Lugo disse que "a primeira medida sobre o caso de Itaipu será formar uma equipe técnica" para analisar o preço real da energia produzida na hidrelétrica. Lugo exige que o governo brasileiro aceite a revisão antecipada do Tratado de Itaipu (marcada originalmente para 2023). "Lula mostrou-se disposto a isso", afirmou, em referência à reunião que teve com o presidente em Brasília recentemente. "Ele diz que, em muitos casos, nem seus técnicos coincidem sobre os números", disse Lugo, para destacar que dentro do próprio governo Lula existem divergências sobre os preços pagos ao Paraguai.Segundo Lugo, eleito no domingo com 40,82% dos votos, "queremos a chance de sentar à mesa, com diversidade de opiniões, e falar sobre o Tratado de Itaipu, a administração, a transferência de energia, e definir o que é um ?preço justo? e o que é preço de mercado". "Esperamos que isso possa ser dialogado o mais rápido possível", disse o presidente eleito, líder da Aliança Patriótica para a Mudança (APC), uma colcha de retalhos que une grupos de extrema esquerda, sem-terra, movimentos indígenas e setores conservadores tradicionais, junto com grupos de centro e centro-direita como o Partido Liberal Radical Autêntico, que será sua principal base no Parlamento.SEM EFEITO EVOLugo não será um "Evo Morales paraguaio", afirmam os analistas de Assunção em referência ao comportamento que o presidente da Bolívia teve em relação ao fornecimento de gás de seu país para o Brasil. Eles afirmam que, ao contrário do socialista boliviano, o bispo paraguaio "não pode fechar uma torneira de um gasoduto e pressionar o Brasil". "Com Itaipu é diferente."O presidente eleito admite que sua via terá de ser a diplomática. Lugo afirmou ontem que está descartado que as divergências do Paraguai com o Brasil sobre Itaipu possam levar a uma crise como a ocorrida nos últimos anos entre o governo da Bolívia e a Petrobrás. "Acho que é muito diferente. Nós temos um tratado binacional em Itaipu. E a Bolívia tinha um contrato com uma empresa. Isso marca uma diferença. No nosso caso, a conversa é de Estado para Estado. Vamos buscar um consenso que seja bom para os dois países."Segundo ele, "esperar até 2023 (data prevista para a revisão do acordo de Itaipu) não é algo que convenha aos paraguaios". Lugo disse que descarta apelar à Corte Internacional da Haia para resolver a controvérsia, em caso de impasse entre seu governo e o de Lula: "Se for o caso, esperamos resolver isso de forma local, talvez pedindo a mediação de um país da região". No entanto, ele evitou especular qual país poderia eventualmente ser convocado para mediar um conflito entre o Paraguai e o Brasil. "Eu confio na racionalidade e objetividade do governo brasileiro."Setores da sociedade paraguaia costumam criticar a política do Brasil em relação ao país, afirmando que os diversos governos brasileiros - e o empresariado - são "imperialistas" com o Paraguai. Questionado sobre o suposto "imperialismo brasileiro", Lugo rejeitou esse rótulo: "Não acho que seja assim".

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