Tiago Queiroz/ Estadão - 3/4/2020
Tiago Queiroz/ Estadão - 3/4/2020

Efeitos colaterais de um choque de juros são perversos, mas sem ele seria ainda pior

Na Turquia, quando a inflação deu um salto em 2021, o BC deles não só não aumentou a taxa básica, como promoveu sua redução; a inflação saltou de 20% para 70% ao ano, no rastro de uma forte desvalorização cambial

Luís Eduardo Assis*, O Estado de S.Paulo

23 de maio de 2022 | 04h00

Estamos vivendo um choque de juros como nunca tivemos. No último ciclo de alta, com início em abril de 2013, o Banco Central do Brasil levou 27 meses para subir a Selic em sete pontos porcentuais. Dessa vez, espera-se um salto de quase 12 pontos porcentuais em apenas 18 meses.

A razão é conhecida: a combinação (rara) entre alta no preço internacional das commodities e forte desvalorização cambial, magnificada ainda pelas condições climáticas desfavoráveis aqui no Brasil. Uma tempestade perfeita. O remédio para tantos males é subir juros, subir ainda mais, mais um pouco e aguardar o resultado conhecido: desaceleração do nível de atividade e, um dia desses, queda da inflação.

Economistas não ortodoxos gostam de pontuar que, como a inflação não é de demanda, refrear a atividade de nada adianta para combatê-la. O preço da alface, que subiu 45% nos últimos 12 meses, pouco se importa com as reuniões do Comitê de Política Monetária (Copom). Tampouco o repolho, que aumentou 54,7%. A opinião convencional, sustentada por evidências empíricas, é que juros altos podem combater os efeitos secundários de um choque de oferta e, portanto, continuam sendo uma ferramenta necessária. E tome juros.

Confrontar a relação entre juros e inflação pode ser perigoso. Na Turquia, o autocrata Erdogan sentiu-se à vontade para urdir uma teoria tão inusitada quanto criativa, que custou a cabeça de três presidentes do Banco Central. Para ele, juros altos são o problema, não a solução. Assim, quando a inflação turca deu um salto em 2021, o Banco Central deles não só não aumentou a taxa básica, como promoveu sua redução. Os juros reais ficaram fortemente negativos, estimulando o consumo, e a economia cresceu 9% no ano passado. A inflação? Saltou de 20% para 70% ao ano, no rastro de uma forte desvalorização cambial e um frenético faniquito dos mercados financeiros. A cloroquina econômica do presidente turco tem sido desastrosa.

A campanha eleitoral oferece oportunidades para que a agenda econômica seja discutida com maior amplitude. Não subir juros quando a inflação se eleva não dá certo. Mas os efeitos colaterais de um choque de juros são perversos, devastadores. A queda da inflação será lenta e dolorosa, para comiseração de todos. O remédio fará mal ao doente, mas sem ele seria ainda pior. Isso é pouco animador. É preciso ampliar o debate e discutir novos ingredientes na política anti-inflacionária. 

* ECONOMISTA. FOI DIRETOR DE POLÍTICA MONETÁRIA DO BANCO CENTRAL E PROFESSOR DE ECONOMIA DA PUC-SP E FGV-SP

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