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Recados do Banco Central indicam que a alta da Selic não acaba em março

Se tem uma coisa que aprendemos desde o início da pandemia, é que três meses são uma eternidade em termos de cenário

Luis Otavio Leal*, O Estado de S.Paulo

23 de fevereiro de 2022 | 04h00

A partir da leitura da ata da reunião passada do Comitê de Política Monetária (Copom), discuto aqui como os cenários internos e externos podem influir nas próximas decisões do Banco Central (BC), chegando a uma conclusão que vai, de certo modo, contra o consenso atual.

Se fôssemos dar um título ao documento, seria Ata dos Recados. O primeiro deles – e talvez o mais surpreendente, pois não é do feitio do BC ser tão explícito em comentários sobre questões políticas – foi dado aos defensores das PECs que visam a baixar o preço dos combustíveis. Para o BC, a relação custo-benefício da medida é totalmente desfavorável: como contrapartida a uma redução da inflação no curto prazo, haveria impactos de médio e longo prazos que trariam um efeito líquido negativo para a condução da política monetária.

O segundo recado foi para quem não entendeu que o ajuste deverá ficar acima do cenário de referência, que supõe que os juros cheguem a 12% ao ano em março, feche 2022 em 11,75% a.a. e caia para 8,00% a.a. ao final de 2023. O terceiro recado foi para quem ficou em dúvida sobre a utilização da expressão “próximos passos” no comunicado. Era apenas uma figura de linguagem ou indicava a ideia de que o Copom iria além de março com a alta dos juros? Bem, se havia alguma dúvida quanto a isso, a fala posterior do diretor de Política Monetária do BC, Bruno Serra, sobre “pelo menos duas altas”, serviu para saná-la.

A Ata dos Recados também deixou algumas questões em aberto. A principal delas é se o “ajuste mais contracionista que o utilizado no cenário de referência ao longo do horizonte relevante” se refere apenas à taxa máxima a ser alcançada, ou à duração do ciclo, ou a uma combinação linear das duas opções.

Recados dados, recados entendidos, a partir apenas das indicações da ata a conclusão a que podemos chegar é de que os juros terão de subir mais que 12,00% a.a. e que a última elevação não será na reunião de março.

Juntando essas informações, parece que o “plano de voo” atual do BC seria um aumento de 1,00 ponto porcentual na reunião de março e outro de 0,50 p.p. na de maio, encerrando o atual ciclo com a taxa em 12,25% a.a. Entretanto, apesar de todas essas evidências, mantemos a nossa projeção de Selic terminal em 11,75% a.a. Vamos entender o porquê.

O mercado seguramente está certo em precificar que, neste momento, a estratégia do BC é de elevar os juros até, ao menos, 12,25% a.a. Entretanto, se tem uma coisa que aprendemos desde o início da pandemia, é que três meses são uma eternidade em termos de cenário. Basta lembrar que, em meados de dezembro de 2021, após a divulgação de um número horroroso da produção industrial e de uma surpresa positiva com o IPCA-15, o mercado chegou a pôr em dúvida a necessidade de dar 1,50 p.p. na reunião do Copom de fevereiro deste ano. Por acreditarmos que essa combinação poderá ocorrer novamente antes da reunião de maio e que o início do processo de elevação dos juros nos EUA pode ajudar no trabalho do BC de conter a inflação por aqui, mantemos nossa projeção de 11,75% a.a. para o final do atual ciclo de alta dos juros, apesar de haver claramente um viés de alta para ela. 

*ECONOMISTA-CHEFE DO BANCO ALFA 

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