'Mercado considera os dois candidatos ruins, cada um a seu jeito', diz Stuhlberger, sobre eleição

Para Luis Stuhlberger, ao contrário das eleições anteriores, esta não é considerada binária, no sentido de candidatos mais à esquerda ou à direita

Cristiane Barbieri - O Estado de S.Paulo

Como boa parte do mercado financeiro, a gestora Verde Asset tem trabalhado com um cenário de uma vitória apertada de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) frente a Jair Bolsonaro (PL), nas eleições de outubro. Poderia ser um sinal promissor, já que uma das conversas mais importantes que Luis Stuhlberger, presidente e sócio-fundador da empresa, diz ter tido em sua vida de gestor de recursos foi com o ex-ministro Aloizio Mercadante, em 2002. Stuhlberger diz ter percebido na interlocução com o assessor do então candidato Lula que o governo do PT não seria tão ruim quanto o mercado esperava, apostou no crescimento do Brasil e a Verde teve uma das melhores rentabilidades de sua longa história de sucessos.

Só que, há poucos dias, Stuhlberger jantou, ao lado de outros empresários, com Lula. Viu que o ex-presidente (e novamente candidato) tinha um olhar de quem acreditava no que dizia: a ideia é aumentar o salário mínimo para que a população volte ao consumo, os empresários ganhem dinheiro e a economia cresça. “Ele está falando sério e quer melhorar o Brasil, dentro da visão que ele tem”, disse Stuhlberger, em evento da Verde, na manhã desta terça-feira, 28.

O problema são os efeitos posteriores que as boas intenções escondem, como mostrou em números o economista-chefe da Verde Asset, Daniel Leichsenring, em evento em comemoração dos 25 anos do fundo nesta terça-feir, 28. O aumento do salário mínimo em 80% em termos reais no governo Lula e em 10% no governo Dilma resultou na explosão do déficit público, por conta do impacto na Previdência. Por esse e outros motivos o País, como se sabe, namorou com a insolvência no fim do governo Dilma.

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Somados ao aumento do número de funcionários públicos, ao crédito público oferecido via BNDES e ao uso das estatais (que têm no endividamento explosivo da Petrobras seu exemplo mais bem acabado), a conclusão foi de mau uso do dinheiro público, segundo eles. "Chegamos ao fim desse período com os mesmos problemas de miséria, educação e saúde e desigualdade", afirmou Leichsenring. "O desastre petista teve como consequência defasada da má alocação de capital o Brasil crescendo 0,5% menos do que a América Latina."

Luis Stuhlberger, sócio fundador e presidente da gestora Verde Asset Management; “Os dois candidatos são ruins, cada um do seu jeito” Foto: Iara Morselli/ Estadão

Não que a alternativa nas urnas seja melhor, segundo os profissionais da Verde. Do mesmo modo que Lula, Bolsonaro e o atual Congresso querem o fim do teto dos gastos. O presidente também atua contra a Lei de Responsabilidade Fiscal e ataca as reformas feitas no governo Michel Temer, que tentaram afastar o País da beira da insolvência. "Embora os dois (candidatos) sejam ruins para o fiscal, o governo petista foi pior, sem comparação", disse Leichsenring. “É alta a probabilidade do retrocesso e é preciso mudar a percepção de que dinheiro público é grátis e conserta qualquer tipo de problema.”

Para Stuhlberger, ao contrário das eleições anteriores pós-redemocratização, esta não é considerada binária, no sentido de candidatos mais à esquerda ou à direita. “O mercado considera que os dois candidatos são ruins, cada um a seu jeito”, afirmou. "Nas ruas dizem: 'é um psicopata contra um incompetente bem intencionado'."

Apesar de a percepção de uma “volta ao passado” ser grande, um eventual novo governo Lula terá desafios que o primeiro não enfrentou. Um deles é a maior "parlamentarização" do governo, com o Congresso mais poderoso em relação à figura do presidente, principalmente no que diz respeito ao Orçamento. Os parlamentares hoje limitam vetos do presidente e têm emendas impositivas, que lhes dão maior discricionariedade. “Caso Lula seja eleito, haverá uma briga grande entre o hiperpresidencialismo com o parlamentarismo mais forte, representado pelo (presidente da Câmara) Arthur Lira (PP-AL)”, afirmou Alexandre Marinis, analista político, que participou do evento.

Outro desafio é o fato de o Congresso ser mais liberal, do ponto de vista econômico, do que o enfrentado nas gestões anteriores do PT. O partido também sabe que será necessário colocar uma âncora nos gastos públicos, no lugar do teto de gastos. Para a Verde, também será inevitável a discussão de uma reforma tributária, com aumento de impostos. Entrariam aí taxação de dividendos e uma nova alíquota do imposto de renda.

"Se o Lula quiser repetir o que fez entre 2003 e 2010 - que é aumentar gastos (ainda que não nos primeiros anos) -, será a volta ao passado", afirmou Stuhlberger. “Vamos ter mais inflação e estaremos numa nave espacial rumo ao passado e não ao futuro."

Para a gestora, a terceira via perdeu timing de lançamento de candidatura. A saída prematura, na visão da Verde, de Sergio Moro fez com que Bolsonaro recuperasse sua popularidade precocemente. Já os atritos causados pela desistência de João Doria (PSDB) a concorrer ao Planalto não corroborou para a união em torno da terceira via. Simone Tebet (MDB-MS), por sua vez, teria demorado a lançar-se como candidata à presidência.

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Para Luis Stuhlberger, ao contrário das eleições anteriores, esta não é considerada binária, no sentido de candidatos mais à esquerda ou à direita

Cristiane Barbieri - O Estado de S.Paulo

Como boa parte do mercado financeiro, a gestora Verde Asset tem trabalhado com um cenário de uma vitória apertada de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) frente a Jair Bolsonaro (PL), nas eleições de outubro. Poderia ser um sinal promissor, já que uma das conversas mais importantes que Luis Stuhlberger, presidente e sócio-fundador da empresa, diz ter tido em sua vida de gestor de recursos foi com o ex-ministro Aloizio Mercadante, em 2002. Stuhlberger diz ter percebido na interlocução com o assessor do então candidato Lula que o governo do PT não seria tão ruim quanto o mercado esperava, apostou no crescimento do Brasil e a Verde teve uma das melhores rentabilidades de sua longa história de sucessos.

Só que, há poucos dias, Stuhlberger jantou, ao lado de outros empresários, com Lula. Viu que o ex-presidente (e novamente candidato) tinha um olhar de quem acreditava no que dizia: a ideia é aumentar o salário mínimo para que a população volte ao consumo, os empresários ganhem dinheiro e a economia cresça. “Ele está falando sério e quer melhorar o Brasil, dentro da visão que ele tem”, disse Stuhlberger, em evento da Verde, na manhã desta terça-feira, 28.

O problema são os efeitos posteriores que as boas intenções escondem, como mostrou em números o economista-chefe da Verde Asset, Daniel Leichsenring, em evento em comemoração dos 25 anos do fundo nesta terça-feir, 28. O aumento do salário mínimo em 80% em termos reais no governo Lula e em 10% no governo Dilma resultou na explosão do déficit público, por conta do impacto na Previdência. Por esse e outros motivos o País, como se sabe, namorou com a insolvência no fim do governo Dilma.

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Luis Stuhlberger, sócio fundador e presidente da gestora Verde Asset Management; “Os dois candidatos são ruins, cada um do seu jeito” Foto: Iara Morselli/ Estadão

Não que a alternativa nas urnas seja melhor, segundo os profissionais da Verde. Do mesmo modo que Lula, Bolsonaro e o atual Congresso querem o fim do teto dos gastos. O presidente também atua contra a Lei de Responsabilidade Fiscal e ataca as reformas feitas no governo Michel Temer, que tentaram afastar o País da beira da insolvência. "Embora os dois (candidatos) sejam ruins para o fiscal, o governo petista foi pior, sem comparação", disse Leichsenring. “É alta a probabilidade do retrocesso e é preciso mudar a percepção de que dinheiro público é grátis e conserta qualquer tipo de problema.”

Para Stuhlberger, ao contrário das eleições anteriores pós-redemocratização, esta não é considerada binária, no sentido de candidatos mais à esquerda ou à direita. “O mercado considera que os dois candidatos são ruins, cada um a seu jeito”, afirmou. "Nas ruas dizem: 'é um psicopata contra um incompetente bem intencionado'."

Apesar de a percepção de uma “volta ao passado” ser grande, um eventual novo governo Lula terá desafios que o primeiro não enfrentou. Um deles é a maior "parlamentarização" do governo, com o Congresso mais poderoso em relação à figura do presidente, principalmente no que diz respeito ao Orçamento. Os parlamentares hoje limitam vetos do presidente e têm emendas impositivas, que lhes dão maior discricionariedade. “Caso Lula seja eleito, haverá uma briga grande entre o hiperpresidencialismo com o parlamentarismo mais forte, representado pelo (presidente da Câmara) Arthur Lira (PP-AL)”, afirmou Alexandre Marinis, analista político, que participou do evento.

Outro desafio é o fato de o Congresso ser mais liberal, do ponto de vista econômico, do que o enfrentado nas gestões anteriores do PT. O partido também sabe que será necessário colocar uma âncora nos gastos públicos, no lugar do teto de gastos. Para a Verde, também será inevitável a discussão de uma reforma tributária, com aumento de impostos. Entrariam aí taxação de dividendos e uma nova alíquota do imposto de renda.

"Se o Lula quiser repetir o que fez entre 2003 e 2010 - que é aumentar gastos (ainda que não nos primeiros anos) -, será a volta ao passado", afirmou Stuhlberger. “Vamos ter mais inflação e estaremos numa nave espacial rumo ao passado e não ao futuro."

Para a gestora, a terceira via perdeu timing de lançamento de candidatura. A saída prematura, na visão da Verde, de Sergio Moro fez com que Bolsonaro recuperasse sua popularidade precocemente. Já os atritos causados pela desistência de João Doria (PSDB) a concorrer ao Planalto não corroborou para a união em torno da terceira via. Simone Tebet (MDB-MS), por sua vez, teria demorado a lançar-se como candidata à presidência.

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