Marcos Oliveira/Agência Senado - 5/3/2020
Marcos Oliveira/Agência Senado - 5/3/2020

Desde 2012 o Brasil não tinha uma situação tão boa na geração hídrica, diz diretor-geral da ONS

Para Luiz Ciocchi, situação melhor ocorre devido a melhorias na gestão da vazão de usinas

Denise Luna, O Estado de S.Paulo

30 de junho de 2022 | 10h52

RIO - Depois da pior crise hídrica no País em 91 anos, vivida em 2021, o Brasil atravessa a melhor situação nos reservatórios das hidrelétricas desde 2012, que chegarão ao período seco este ano com níveis médios de armazenagem entre 40% e 50%, contra os 17% do ano passado, informou ao Estadão/Broadcast Luiz Ciocchi, diretor-geral do Operador Nacional do Sistema (ONS). A “tranquilidade” de 2022, no entanto, não foi causada por chuvas mais intensas, mas por uma melhor gestão da vazão de algumas usinas, disse Ciocchi.

“Desde 2012 não tinha uma situação tão confortável como temos esse ano, e não é por uma chuva excepcional, a chuva foi boa no tempo chuvoso, toda a estação úmida que começou no ano passado começou na hora certa, enquanto em 2020/2021 atrasou bastante”, explicou o executivo, há dois anos no cargo. As termelétricas, que chegaram a significar metade da geração de energia do País no ano passado, este ano serão pouco usadas. No momento, mesmo em pleno período seco, correspondem a pouco mais de 14% do total gerado.

As chuvas de novembro a abril deste ano, quando começa o período seco, ficaram em 80% da média. E junto com medidas de controle das vazões, ou seja, do volume de água liberado pelas hidrelétricas, ajudou a poupar água para geração de energia.

“Essas medidas foram basicamente relativas ao controle de vazão de algumas usinas, em particular nas bacias do rio Grande e do rio Paraná, que é ali que está a caixa d’água do Brasil,  permitindo um armazenamento maior e melhor nas cabeceiras”, informou, destacando que a usina de Furnas, maior reservatório do País, chegou a atingir 80% do volume total, mas agora começa a perder volume até novembro, quando começa o período chuvoso.

Também em São Paulo, as usinas de Jupiá e Porto Primavera também reduziram a vazão para poupar energia para o período seco, após uma “ampla discussão com a ANA (Agência Nacional de Águas) e o Ibama (Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e Recursos Naturais)”, conta Ciocchi.

Segundo o executivo, era impossível fazer a administração desses reservatórios com a liberação de 4.900 metros cúbicos de água por segundo das usinas. “Hoje está em 3.900 mt3/seg, e já chegou a operar em 2.900, e isso está funcionando muito bem, possibilitou inclusive a volta da hidrovia (Tietê-Paraná) mais cedo”, disse o operador.

Até o subsistema Sul, que chegou a ser uma preocupação há alguns meses, registrando nível de armazenagem em torno dos 20%, após chuvas fortes pulou rapidamente para 80%. “A capacidade de armazenamento no Sul é muito pequena, uma chuva que dá no fim de semana enche tudo”, disse.  

O subsistema Norte já entrou no período seco, mas continua mandando um bom volume de energia elétrica para o Sistema Interligado Nacional (SIN), enquanto o subsistema Nordeste, se tirar uma foto hoje, segundo Ciocchi, está com os reservatórios quase 100% cheios.

“A conclusão é que risco de desabastecimento este ano por questões energéticas é praticamente zero. Não dá para cravar que não vai ter problema nenhum, porque sempre pode ter uma linha (de transmissão), uma outra coisa pontual”, afirmou.

A baixa atividade econômica no Brasil também tem ajudado a encher os reservatórios, com a necessidade de carga de energia elétrica apontando para um viés de baixa. O clima também tem sido favorável, com as temperaturas mais baixas fazendo com que os principais centros de consumo, São Paulo e Rio de Janeiro, desliguem o ar condicionado.

“A carga (de energia elétrica) não tem subido, não está explodindo. A gente trabalha na carga com tendência de baixa, mas volta com força em setembro/outubro, justamente em uma hora que a gente está no fim do período seco, e rezando para chegar a chuva”, previu. “Comparado com o planejamento oficial do ano passado, a carga está bem menor”, completou.

Para Ciocchi, a privatização da Eletrobras foi um ponto positivo para o mercado de energia brasileiro e do ponto de vista do operador, o impacto é zero. Ele avalia que para efeitos regulatórios deve haver uma série de ajustes, que já estão sendo feitos, como a assinatura de novos contratos de concessão. 

“Do ponto de vista do setor elétrico, eu acho que vai ser uma coisa bastante boa, eu digo para o pessoal que ficou por lá, existe vida fora das estatais”, disse, referindo-se aos empregados da ex-estatal, privatizada no último dia 10.

Já o aumento da geração solar distribuída no Brasil, que é a energia gerada nos telhados das casas e pequenos comércios, entrou no radar de Ciocchi. Ele se preocupa com o crescimento da tecnologia no Brasil e a complexidade que traz para o operador do sistema, que fica sem precisão sobre a energia que precisa mandar para o SIN. No momento, ressaltou, ainda não há risco para o abastecimento, mas com o aumento acelerado que vem sendo percebido no País, pode se tornar um problema no futuro, se o ONS não se preparar.

De acordo com a Empresa de Pesquisa Energética (EPE), até 2025 devem entrar mais 20 gigawatts (GW) de geração distribuída no Brasil e 25 GW até 2030, um volume maior do que a geração da usina hidrelétrica de Itaipu (14 GW). 

 “A gente começa a olhar lá pra frente e começa a se preparar para que o ONS não seja um empecilho, que o ONS esteja capacitado seja do ponto de vista técnico, infraestrutura de sistemas, de pessoal, de competências técnicas para a gente ajudar o Brasil nessa direção”, concluiu.

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