Lula aconselha Obama e McCain a fazer como ele em 2002

Para o presidente, os dois candidatos deveriam assinar uma carta ao povo americano assumindo compromissos

Tânia Monteiro e Nalu Fernandes,

24 de setembro de 2008 | 23h45

Antes de embarcar de volta ao Brasil na noite desta quarta-feira, após três dias de extensa agenda em Nova York, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva voltou a defender a necessidade de regulação dos mercados e recomendou aos dois candidatos ao governo norte-americano que repitam o seu gesto quando estava disputando eleições e escrevam uma carta para tranqüilizar a população.  Bush diz que economia toda está em perigo e chama candidatosObama e McCain farão comunicado conjunto sobre criseEntenda a crise nos EUA  "Eu sei que não é fácil que estamos em um processo eleitoral, e o ideal era que os dois candidatos pudessem assinar uma carta ao povo americano, como eu assinei uma carta ao povo brasileiro, assumindo compromissos, para passar tranqüilidade para o povo americano e para o mundo como um todo, na medida em que os Estados Unidos são a maior economia e qualquer crise pode afetar todos os outros países", disse Lula. Segundo ele, "o período do neoliberalismo está encerrado".  Em Nova York, Lula se reuniu com lideres de seis países e da União Européia. O presidente afirmou que novas reuniões deverão ser realizadas com outros líderes para tentar encontrar mecanismos pára resolver a crise. Segundo Lula, foi montado um calendário de reuniões de ministros da Fazenda. Daqui a 15 dias, seria realizado ainda um novo encontro com o FMI. O presidente disse que é preciso haver mais transparência nos mercados financeiro internacional e na forma como os bancos trabalham. Exigiu ainda que o FMI fiscalize as instituições financeiras do primeiro mundo, como fizeram com os países em desenvolvimento. "É preciso regulamentar" "É preciso regulamentar. Não pode ficar solto. Tem de fazer isso por intermédio dos bancos centrais", recomendou Lula. "Os Bancos Centrais se reuniram na Basiléia durante tanto tempo e estabeleceram regras para todos os países emergentes. Por que é que não podem estabelecer regras para os países ricos? É apenas uma questão de disposição política".  Ao salientar que o período do neoliberalismo acabou, o presidente emendou: "está encerrado porque ficou provado que também no sistema financeiro tem de ter seriedade, tem de ter ética. Não é apenas um cidadão comum que tem de ser sério, ou a dona de casa. O banco tanto de investimento, como de varejo tem de agir com seriedade". E completou: "eu só lamento que passei 20 anos vendo estes bancos de investimento darem palpite sobre economia do Brasil, da China, da Rússia, demonstrando que eles tentavam fingir que cuidavam de nós e não cuidavam deles próprios. Então, é preciso ter mais responsabilidade".  Mais cedo, diante das manifestações dos chefes de Estado, das reações aos discursos na Assembléia Geral das Nações Unidas (ONU) e de uma reportagem do jornal The New York Times, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva já tinha avaliado que a discussão sobre a crise financeira vai se transformar, de maneira "inexorável", em um "debate multilateral" e criar regras para controlar a especulação desenfreada. Na edição desta quarta-feira, o diário nova-iorquino lembra que os líderes que discursaram na ONU destacaram o fato de que "o tremor (financeiro) nos Estados Unidos ameaçava a economia global". Depois da constatação, o jornal destaca uma frase do presidente Lula, dita no discurso de abertura da Assembléia Geral: "O ônus da cobiça desenfreada não pode cair impunemente sobre todos". Ao sair de um almoço com os membros da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), Lula comentou a citação no The New York Times: "Eu acho que todo mundo queria falar o que eu falei. Eu só tive a sorte de falar primeiro". Proteção contra  especulação Em entrevista coletiva no hotel Waldorf Astoria, Lula lembrou que participaria à noite de mais uma discussão sobre a crise financeira internacional, durante reunião promovida pelo primeiro-ministro britânico, Gordon Brown, e dirigentes da Espanha, Inglaterra, Austrália e França, além de autoridades do Fundo Monetário Internacional (FMI). "Penso que será inexorável que a discussão da crise financeira tome maior fôlego daqui para a frente. Não é justo que as pessoas pobres, que não ganharam dinheiro com a especulação, sejam vítimas da especulação feita por banqueiros em algumas partes do mundo." Focando o debate na questão do crescimento, Lula acrescentou: "Eu acho que todos os órgãos multilaterais precisam encontrar uma proteção para que os países pobres, que passaram 20 anos sem crescer e agora estão crescendo, não sejam vítimas de uma ciranda financeira, ou de um cassino que inventaram aqui, nos EUA". Risco Brasil e risco EUA Mais tarde, durante reunião na sede da ONU com representantes do Chile, França e Espanha, convocada para discutir o combate à pobreza, o presidente voltou ao assunto de forma contundente. "O sistema financeiro tem que ser controlado. As pessoas não podem viver de vendas de papéis sem gerar um único emprego", disse. "Onde estão os senhores que até ontem sabiam de tudo?" - questionou o presidente, em discurso de improviso. "Onde estão os bancos que até ontem apresentavam avaliações de risco em relação a outros países no mundo?". Ele reclamou ainda que cada vez "que liga o computador" o risco Brasil cresce e o dos Estados Unidos, epicentro da crise, continua no mesmo nível. "Como isso é possível se a crise é aqui?", questionou. Lula deve chegar a Brasília no início da manhã e retomar os despachos no Palácio do Planalto no período da tarde.

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