Lula acusa Aracruz e Sadia de especulação gananciosa

Presidente diz que perdas das empresas não estão ligadas à crise e sim à especulação contra o real

Joaquim Alessi, especial para O Estado de S. Paulo,

04 Outubro 2008 | 13h28

 O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou neste sábado, 4, que as perdas das empresas Aracruz e Sadia no mercado de câmbio não são decorrentes da crise financeira internacional, mas de especulação. "Não foi por causa da crise, mas da especulação", disse Lula, no encerramento da campanha do candidato do PT, Luiz Marinho, em São Bernardo do Campo. "Elas vinha especulando contra a moeda brasileira. Vinham praticando, por ganância, uma especulação nada recomendável", acrescentou.  O presidente assegurou ainda que a economia brasileira vai bem, apesar da crise.   Veja também: Aracruz anuncia perda bilionária com câmbio e ações derretem Setor de serviços escapa da queda da Bovespa em setembro Ações da Sadia e Aracruz desabam com aposta errada no câmbio Sadia e Aracruz mostram que crise aportou no Brasil Entenda o pacote anticrise que passou no Senado dos EUA A cronologia da crise financeira  Veja como a crise econômica já afetou o Brasil Entenda a crise nos EUA    Ainda sobre os efeitos da crise norte-americana na economia brasileira, Lula admitiu que o País enfrenta "um pequeno problema de crédito" e garantiu que o governo tomará as medidas necessárias para que não falte financiamento para a exportação. "Nós vamos suprir essa deficiência no crédito pela falta de dólares no mercado internacional para financiar as nossas exportações", afirmou. No entanto, o presidente ressaltou mais uma vez que não haverá um pacote para enfrentar os problemas que podem resultar da crise financeira internacional.   A Sadia perdeu R$ 760 milhões e a Aracruz R$ 1,95 bilhões no mercado de derivativos, no qual as companhias apostam no valor futuro do dólar. As empresas buscavam ter lucro com a eventual manutenção da tendência de valorização do real ante o dólar, o que acabou não acontecendo devido ao agravamento da crise dos EUA. A alta do dólar, que chegou a beirar os 18% em setembro, fez com estas operações resultassem em prejuízo.   Tsunami e marolinha   Lula reforçou que serão tomadas medidas pontuais. E garantiu ainda que o País vai continuar crescendo. Não haverá falta de recursos para projetos estruturais, afirmou, destacando a indústria naval e os setores de gás, álcool, refinarias e siderurgia. "Pode ter certeza de que não faltará dinheiro para incentivar os exportadores e as empresas que estão investindo", disse. Apesar de admitir problemas de crédito, o presidente minimizou os efeitos da crise financeira norte-americana no Brasil, afirmando que "lá, ela é um tsunami; aqui, é uma marolinha".   Lula considerou um bom indício a aprovação do pacote de incentivo à economia norte-americana, na sexta-feira, pela Câmara dos EUA, ressaltando o fato de os parlamentares terem atendido aos apelos do presidente Bush e dos dois candidatos à Presidência. "Mas não se sabe se esse pacote será suficiente, porque não se sabe o tamanho do rombo", ressalvou.   O presidente afirmou ainda que crises menos graves do que a atual já prejudicaram o Brasil de maneira drástica. "A crise americana é maior do que a asiática, é maior do que a crise do México, que quebraram o Brasil. E ela ainda não chegou diretamente ao País", disse. "Nós vamos ensinar a esses países como a gente vê uma crise dessas. Vamos enfrentar essa crise trabalhando mais e investindo mais."   Dúvidas no mercado   A Sadia reconheceu que as operações que foram realizadas pela diretoria financeira da companhia excederam o hedge (proteção) tradicional utilizado por muitos exportadores, que buscam reduzir a influência da flutuação da moeda nos seus resultados por meio de contratos de câmbio. Após as perdas bilionárias, o diretor-financeiro da empresa foi demitido. Agora, especialistas esperam por impactos nos resultados das duas companhias nos próximos dois trimestres.     Há dúvidas no mercado sobre se muitas outras empresas também poderiam ter caído na tentação de buscar ganhos financeiros com derivativos cambiais, quando o ideal seria que apenas buscassem garantir o equilíbrio na lado operacional. As notícias contaminaram as ações de muitas empresas brasileiras na Bovespa, com analistas preocupados se o problema poderia estar ocorrendo em mais companhias. Após anunciar perdas bilionárias com câmbio na última sexta-feira, as ações preferenciais da Aracruz despencaram 18,6%.   Os exportadores de carnes Marfrig e Minerva e a exportadora de açúcar e álcool Cosan enviaram em setembro comunicados ao mercado dizendo que não possuem operações alavancadas de derivativos e que suas operações em hedge estão alinhadas com o lado comercial, mas parece que o mercado está descrente.   (com Reuters e Tatiana Freitas, da Agência Estado)

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