Lula adiou visita para não parecer apoio a Evo

Votação da CPMF serviu de desculpa para mudança na data da viagem

Denise Chrispim Marin, O Estadao de S.Paulo

08 de dezembro de 2007 | 00h00

O Palácio do Planalto afastou o risco de a visita oficial do presidente Luiz Inácio Lula da Silva à Bolívia, marcada para este mês, vir a ser interpretada como apoio ao novo projeto de Constituição aprovado pelos aliados de seu colega, Evo Morales. Sob a desculpa de que havia uma urgência a enfrentar - a tramitação da prorrogação da Contribuição Provisória sobre a Movimentação Financeira (CPMF) no Senado -, os assessores de Lula habilmente adiaram a visita, agendada inicialmente para a próxima quarta-feira, para os dias 16 e 17. Driblaram, com isso, a presença de Lula em La Paz às vésperas da nebulosa data de 14 de dezembro, quando a Constituição de Evo Morales deverá ser sancionada sob protesto em todo o país.O conselho sobre o adiamento da visita partiu do Itamaraty, no fim de novembro. Na época, Evo Morales havia obtido a aprovação da Assembléia Nacional ao projeto de nova Constituição numa votação que se deu em um quartel de Sucre, e da qual participaram apenas os parlamentares do Movimento ao Socialismo (MAS), seu partido. O projeto, entretanto, não passava do índice de temas e dos títulos de cada artigo, que será formulado depois pelo governo de Evo Morales. Manifestações da oposição resultaram em três mortes, em greves de fome que persistem até hoje e no anúncio do líder boliviano de um referendo popular sobre seu mandato.?ATITUDE SÁBIA?Na última terça-feira, o presidente Lula telefonou para Evo Morales para informá-lo sobre o adiamento da visita. Desculpou-se com a necessidade de estar presente no País para acompanhar a tramitação da emenda da CPMF, cuja vigência se extingue em 30 de dezembro, e o processo de escolha do novo presidente do Senado. A votação da prorrogação da CPMF no Senado, entretanto, está marcada para a próxima terça-feira, dia 11, o que indica que Lula poderia ter mantido sua agenda inicial de visita. "Adiar foi uma atitude sábia", afirmou um diplomata que acompanhou os tumultos nas relações bilaterais nos últimos anos.No próximo domingo, Lula desembarcará em La Paz com a perspectiva de encontrar um cenário um pouco mais tranqüilo na Bolívia - pelo menos, do ponto de vista das interpretações locais sobre sua visita. Ao lado de Evo Morales, deverá assistir à assinatura de acordos de cooperação nas áreas de educação, imigração, turismo e combate ao narcotráfico. A principal das bondades, no entanto, virá da Petrobrás, que deverá se comprometer a novos investimentos no setor de gás natural daquele país.BENESSESDesde sexta-feira, o assessor internacional da Presidência, Marco Aurélio Garcia, e o subsecretário de Assuntos de América do Sul do Itamaraty, embaixador Enio Cordeiro, tentam arrematar esse conjunto de benesses em La Paz. Do ponto de vista do governo brasileiro, o cenário que menos interessa é o da desestabilização política gradual do governo de Evo Morales.O Itamaraty teme que o país, que já teve mais presidentes que anos de independência da Espanha, se veja novamente mergulhado em um clima de interrupção democrática. A reversão da desconfiança do empresariado brasileiro em relação à Bolívia e a cooperação governamental mais estreita, segundo esse raciocínio, tenderiam a contribuir para a estabilidade do país."A generosidade brasileira não significa ser bonzinho com a Bolívia. Significa trabalhar pelos interesses de médio e de longo prazos do Brasil na Bolívia", afirmou outra fonte do Itamaraty.

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