Lula ataca ''trambique'' com derivativos

Presidente critica empresários que fizeram operações, por não se contentarem com o que estavam ganhando

Jamil Chade, ISTAMBUL, O Estadao de S.Paulo

22 de maio de 2009 | 00h00

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva encerrou sua visita à Turquia ontem com um inflamado discurso chamando os empresários brasileiros que operaram no mercado de derivativos de "trambiqueiros". Sem citar nomes, Lula atacou o comportamento das empresas. "Temos um sistema financeiro sólido. Mas o que descobrimos com a crise é que alguns empresários brasileiros estavam aplicando nos chamados derivativos. Ou seja, já não se contentavam em ganhar o que estavam ganhando e acharam que era possível ganhar um pouco mais, fazendo trambique", afirmou. Logo nas primeiras semanas da crise financeira, em setembro, a Sadia admitiu ter perdido R$ 760 milhões com suas posições em contratos de derivativos futuros e opções cambiais. Outra companhia que sofreu com os derivativos foi a Aracruz Celulose, que perdeu US$ 2 bilhões. Estima-se que cerca de 200 empresas tenham perdido dinheiro com derivativos. Lula criticou ainda a falta de iniciativa do setor privado em busca de novos mercados e culpou os "governantes medíocres" que o antecederam pela pobreza no País. Após o discurso, ao falar com a imprensa, Lula tentou desconversar, alegando que havia chamado de trambiqueiros apenas os atores do sistema financeiro internacional. A seguir, as principais broncas do presidente.GOVERNOS MEDÍOCRESDefendendo sua política externa, Lula deixou claro que os governantes não podem ficar esperando por novas oportunidades de negócio. "Vamos acabar chegando no século 21 pobres como éramos no século 20 e culpando os países ricos. A nossa pobreza se deve, muitas vezes, à mediocridade de quem nos governou durante tantos anos e não agiu com a grandeza que o chefe de uma nação tem de agir", disse. "O mundo precisa que os governantes de hoje sejam mais atuantes. O Brasil não tem de ter medo da Turquia, da China. É hora de ousadia para o Brasil e, com a crise, temos de procurar novos mercados em qualquer parte do mundo."EXPORTADORESLula partiu para o ataque contra empresários que estão "esperando a sorte chegar em suas casas". Ele citou o caso da Turquia, país com o qual o Brasil tem um comércio de apenas US$ 1,2 bilhão por ano. "Não é normal que dois países com mais de 260 milhões de pessoas tenham esse fluxo de comércio", disse. "Não podemos querer vender apenas para EUA, Europa e China." Sobrou até para o chanceler Celso Amorim. Lula cobrou ele não ter feito até agora reuniões da comissão mista Brasil-Turquia, criada há anos.CRISELula atacou o sistema financeiro internacional por ter criado um "cassino" e pediu o fim dos paraísos fiscais.FMIPor fim, Lula criticou o comportamento do Fundo Monetário Internacional quando o Brasil devolveu o empréstimo que tinha obtido no início da década. "Decidimos que não aceitaríamos mais ingerência externa Tomamos a decisão de devolver o dinheiro do FMI. Deixamos de ser devedor para ser credor. Eu lembro muito bem a indignação do então diretor-gerente do FMI, Rodrigo de Rato."

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