Lula chama de ''palpiteiros'' os críticos do etanol

Presidente atacou os grupos que acusam o biocombustível de competir com alimentos

Lisandra Paraguassú, O Estadao de S.Paulo

17 de abril de 2008 | 00h00

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva deu início à briga a favor dos biocombustíveis, ontem, na abertura da 30ª Conferência Regional da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO, sigla em inglês). Em entrevista, o presidente classificou de "palpiteiros" os críticos que vinculam a inflação mundial de alimentos com o investimento nos biocombustíveis. E, em sinal claro de que o governo brasileiro quer ocupar espaço nessa disputa, anunciou que vai participar da Conferência Mundial da FAO em junho, viagem que não estava na agenda. Ao ser questionado sobre as críticas recentes feitas aos biocombustíveis por alguns especialistas, Lula recusou-se a tratá-los como "entendidos". "Entendidos, em termos. Muitas vezes, palpiteiros. É muito fácil alguém ficar sentado em um banco da Suíça dando palpite no Brasil ou na África. É importante vir aqui e pôr o pé no barro para saber como a gente vive, a quantidade de terras que temos e o potencial de produção que temos", declarou. Um dos mais recentes "palpiteiros" foi do suíço Jean Ziegler, relator da ONU para o Direito à Alimentação, que chegou a classificar a produção de biocombustível como um "crime contra a humanidade."Lula chegou a dizer que não aceita o confronto entre produção de alimentos e biocombustíveis. "Não aceito porque eu jamais iria aceitar qualquer tipo de política que fizesse a gente comer nafta e fazer combustível de soja", afirmou. "O que tem de fazer, em vez de ficar chorando, é produzir mais alimentos."Como o Estado antecipou, o presidente aproveitou a abertura da 30ª Conferência Regional da FAO para endurecer o discurso contra as tentativas de vincular a recente alta no custo dos alimentos à produção de biocombustíveis. Depois de ler o discurso em que classificou de "respostas simplistas que escondem interesses políticos e econômicos" a tentativa de desqualificar os biocombustíveis, o presidente improvisou. Cobrou uma atitude mais firme dos países em desenvolvimento frente às exigências dos países ricos. "Os países pobres precisam fazer valer a sua lógica. De colocar no centro do debate os seus problemas", afirmou. "Vou dar um exemplo: nas décadas de 1980 e de 1990 cada delegado que está aqui deve ter visto uma delegação do FMI (Fundo Monetário Internacional) no seu país para dizer que tinha de fazer ajuste fiscal, cuidar dos juros, diminuir o Estado porque ia quebrar. É engraçado, eu não vi o FMI dar uma única opinião sobre essa crise americana." Lula afirmou, ainda, que os países pobres não podem mais aceitar as conseqüências das ações dos países ricos, como a emissão de carbono. "Até quando vamos aceitar o papel de sermos coadjuvantes do cenário internacional?" No discurso, o presidente informou que foi convencido pelo diretor-geral da FAO, Jacques Diouf, a ir à Conferência. "Vou para fazer o debate com a seriedade que precisa ter. Não reclamo daqueles que temem que os biocombustíveis possam substituir a produção de alimentos. É preciso que a gente não aceite a lógica daqueles que olham o mundo apenas dentro do seu continente." Falando para representantes da América Latina e Caribe, todos muito longe da riqueza representada pela Europa e EUA, o presidente foi aplaudido de pé ao final de seu discurso.

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