Lula contraria Lugo e diz que não negocia contrato de Itaipu

Presidente parabeniza ex-bispo eleito no Paraguai, mas afirma que tratado sobre hidrelétrica será mantido

Tânia Monteiro, de O Estado de S. Paulo,

21 de abril de 2008 | 10h44

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva parabenizou nesta segunda-feira, 21, o ex-bispo Fernando Lugo, por ter vencido as eleições no Paraguai, e avisou que não muda o contrato com Itaipu. Lula evitou polemizar sobre a principal bandeira do então candidato, que defendeu a revisão do contrato de fornecimento de energia da hidrelétrica, aumentando os seus preços. Segundo o presidente, que falou da importância da alternância de poder nos países, os termos do tratado entre as duas nações serão mantidos. Lula admitiu, no entanto, que poderá oferecer ajuda ao Paraguai por outros meios, como a construção de linhas de transmissão.   Veja também:  Lugo confia em negociação de energia com o Brasil  Coalizão de Lugo se prepara para definir governo paraguaio  Religioso Fernando Lugo é eleito presidente do Paraguai   "Em Itaipu, nós temos um tratado e ele vai se manter", declarou o presidente logo depois de participar de mais uma reunião na Unctad, conferência da ONU para comércio e desenvolvimento, e pouco antes de embarcar de volta ao Brasil, após três dias de viagem a Gana. "O Brasil, como maior economia (da América Latina), tem que estar sempre aberto a fazer com que as coisas tenham andamento de paz na América do Sul. Esse é o meu papel. Portanto, vou aproveitar, e se o Lugo ver hoje a televisão brasileira, vou dizer parabéns pela vitória", declarou.   Lula disse que já mandou um telegrama para Lugo e sinalizou que poderá falar com ele por telefone, ainda no final da tarde desta segunda, quando chegar a Brasília. Questionado se achava que ia enfrentar os mesmos problemas com o Paraguai, que enfrentou recentemente com a Bolívia, quando Evo Morales mandou invadir as refinarias da Petrobrás e estatizá-las, Lula minimizou: "não aconteceu nada com a Bolívia, gente. Aconteceu aquilo que eles entenderam que era importante para eles".   Ao ser questionado o que representava mais um "esquerdista" governando a América Latina, Lula declarou: "ele não é um esquerdista e nós temos que valorizar as pessoas que são eleitas como resultado da democracia. O Lugo pelejou muito tempo, batalhou muito tempo, venceu uma eleição muito disputada, reconhecida já por todos os outros candidatos. Eu acho que todo mundo já reconheceu e os organismos internacionais que estavam acompanhando concordaram com a lisura da eleição. Sabe, eu acho que ganhou de verdade no Paraguai a democracia".   Lula também lembrou que, no Paraguai, havia um partido, o Colorado, que governava o país há 60 anos. "Houve um câmbio, e esse câmbio, se foi da vontade do povo, merece todo o meu respeito", completou.   Sobre as declarações do Frei Betto, seu ex-assessor especial, que disse em Assunção que tinha informações de fontes do governo que o presidente brasileiro admitiu alterações no contrato de Itaipu, Lula, depois de dizer que não podia comentar uma declaração de alguém, reiterou que "não muda o tratado".   O presidente lembrou que o Brasil tem constantes reuniões com o Paraguai que, nestes cinco anos de governo teve "umas 20 reuniões com o Paraguai" sobre distintos temas e não só a questão de Itaipu, mas também a questão da fronteira, para o fornecimento de investimentos. "Temos muito para continuar conversando com o Paraguai", completou Lula.     'Não há preocupação', diz Amorim     O ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, afirmou nesta segunda-feira que "não há preocupação" com a eleição de Fernando Lugo para a presidência do Paraguai, por causa da sua veemente defesa pela revisão do contrato de Itaipu. Amorim, assim como Lula, disse que não haverá revisão nos contratos, mas admitiu fazer concessões, ao ressaltar que o Brasil é a maior economia da região e que precisa ajudar os vizinhos.   Para Amorim, "vivemos uma época de mudanças na América do Sul e temos que encarar as mudanças como coisas positivas, nos adaptarmos e, eventualmente, em algumas dessas mudanças não pensarmos que podemos manter uma paz dos cemitérios". Para ele, isso não é bom. Só era na época da ditadura.   "Não há preocupação quando se sabe dialogar", disse Amorim, assegurando que o Brasil não vai enfrentar com o Paraguai os mesmos problemas que enfrentou com a Bolívia, que rompeu contratos com a Petrobras. "Não vai acontecer e com a Bolívia já está, também, tudo bem resolvido", disse Amorim, depois de assistir ao discurso de Lula na Unctad. Ele reconheceu, no entanto, que estas negociações, muitas vezes, levam muito tempo para serem concluída.   De acordo com o ministro, "é um absurdo" que a energia em Assunção seja ruim e que não dê para ter uma indústria baseada em energia, mesmo o Paraguai sendo sócio da maior hidrelétrica do mundo. "Então, vamos ajudá-lo a fazer linhas de transmissão importantes, e, quem sabe com isso podem até ter uma indústria intensiva de energia e esse é o bom caminho para o Paraguai", declarou o ministro.   Amorim ainda completou: "É porque nós somos bonzinhos ou porque queremos ser paternalistas? Não. É porque é do nosso interesse. Porque queremos um entorno de paz e a paz é que nem liberdade. Na época do governo militar todo mundo sentia falta de liberdade, quando tem liberdade todo mundo acha normal. Paz é assim, você tem que também cultivá-la".

Tudo o que sabemos sobre:
LulaFernando LugoItaipu

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.