Lula critica Estados Unidos por etanol à base de milho

Cereal é usado para biocombustível nos EUA e como alimento em diversos países

Tânia Monteiro, enviada especial de O Estado de S.Paulo,

19 de abril de 2008 | 13h53

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva aproveitou seu discurso de improviso ao lado do presidente de Gana, John Kufuor, para criticar os norte-americanos por terem decidido produzir álcool a partir do milho, o que contribuiria para a uma alta a inflação de alimentos do mundo, uma vez que o cereal serve como base alimentar em diversos países. Veja também: Biocombustível de alimento cria problema moral, diz FMI Amorim responde às críticas do Fundo Especial sobre a crise dos alimentos Os biocombustíveis podem afetar a produção mundial de alimentos? "Na política de biocombustíveis só tem um equívoco: a decisão americana de produzir álcool do milho", declarou Lula neste sábado. Ele atribuiu a alta do preço dos alimentos ao custo do frete causado pelo elevação do preço do petróleo. Lula está em uma verdadeira cruzada pelo mundo para derrubar a tese defendida por países europeus que a produção de alimentos está sendo substituída pela matéria prima para os biocombustíveis. "É preciso acabar com este preconceito contra o Brasil", afirmou ontem. O presidente brasileiro vai bater nesta tecla, nos discursos que fará a partir deste domingo, na Unctad, agência da ONU para comércio e desenvolvimento. Nos encontros que tiver com o secretário-geral da ONU, Ban ki-Moon, Lula vai defender novamente esta tese e pedir o seu apoio. "O Brasil está nos provando que é possível produzir biodiesel e crescer a produção agrícola na área de grãos, como vamos crescer este ano", avisou Lula. Ele pediu que os países africanos entrem nessa discussão e acrescentou que o Brasil poderá se transformar no "celeiro do mundo" por causa da grande quantidade de terra agricultável que possui. Para Lula, os países pobres não querem benevolência, mas acesso à tecnologias e financiamentos, para produzir os alimentos que o mundo precisa. Segundo Lula, os países em desenvolvimento têm de se preparar para enfrentar uma verdadeira guerra comercial em relação aos produtos agrícolas. Um das batalhas ocorre na OMC, onde os países em desenvolvimento querem que os países ricos reduzam seus subsídios, para flexibilizar a entrada de produtos agrícolas dos países pobres. Lula respondeu ainda à União Européia e os países desenvolvidos em geral que têm demonstrado "preconceito" em relação aos biocombustíveis. O presidente salientou que não quer liderar, mas participar deste debate."Não aceitarei que, uma vez mais,os países pobres paguem a conta de dizer que os biocombustíveis são a causa do crescimento do preço dos alimentos", acrescentou. Lula lembrou ainda que todos os países têm de trabalhar pela redução do aquecimento global. Depois de salientar que a sua crítica ao uso de milho pelos Estados Unidos para os biocombustíveis vale para este "ou para qualquer outro produto que sirva de ração animal", comentou que os norte-americanos produzem o etanol daquilo que eles dispõem, e brincou."Gostaria que eles não produzissem, que eles comprassem do Brasil, da cana de açúcar". "Respeitando a autonomia e a decisão de cada país, o que é recomendável é que a gente produza os biocombustíveis de produtos que não sejam alimentos para a produção", disse. "Nós temos terra, temos tecnologia e acho que o momento é importante porque nós vamos tentar acabar com o preconceito que se vende contra o Brasil."   Ele explicou que tem pedido aos países ricos que façam parceria com países pobres para produzir combustível limpo. Na opinião de Lula, esta decisão de "bom senso", ajudaria, inclusive, à manutenção da paz, no combate ao terrorismo e à imigração descontrolada. O presidente voltou chamar a atenção para a ausência de responsabilização do petróleo pela alta dos alimentos."Acho muito estranho fazer crítica ao biodiesel e aos biocombustíveis e não lembrar que, no mundo, tem um bilhão de pessoas passando fome", comentou ele. "Teríamos um problema grave se produzíssemos alimentos e não tivéssemos para quem vender." Para Lula, ao invés de ficarem assustados com a inflação do preço dos alimentos, o ideal era que todos aceitassem o desafio de produzir mais alimentos. Lula lembrou recente conversa que teve com o presidente norte-americano, George W. Bush, quando questionou até quando os Estados Unidos vão ficar vendo a América Central empobrecida ao lado dos Estados Unidos ricos. "Não é muito melhor fazer parceria com os países da América Central para produzir o etanol que eles precisam?" O ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, depois de salientar os acordos assinados entre Brasil e Gana, três deles na área agrícola e um sobre Aids, disse que a discussão sobre biocombustíveis foi levantada para tentar desviar o foco da discussão em relação aos subsídios. "Como sabem que estamos numa fase final da Rodada de Doha e eles sabem que têm que reduzir os subsídios, embora o ideal fosse eliminá-los todos, estão querendo desviar o foco da discussão e não reduzir os subsídios", declarou Amorim, acrescentando que estão querendo achar um "bode expiatório para um problema originário claramente dos países ricos com seus milionários subsídios agrícolas que têm desencorajado a produção de alimentos nos países do terceiro mundo".

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