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Lula deveria voltar à China

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva deveria voltar à China e conversar um pouco mais com as autoridades chinesas. Se as ouvisse com um pouco mais de atenção, talvez notasse um detalhe interessante e até surpreendente: os chineses têm noções muito claras de seus objetivos, cuidam em primeiro lugar de seus interesses e não dão a mínima importância a belas bandeiras como comércio Sul-Sul ou a "alianças estratégicas" entre emergentes. Com um pouco mais de empenho, poderia desconfiar de algo realmente notável: os chineses talvez nem se considerem "do Sul" e, de toda forma, não têm a menor disposição de pertencer a essa categoria ou de nela permanecer. Seu negócio é virar potência de primeira classe. Já têm uma das maiores economias do mundo, acumulam quase US$ 2 trilhões de reservas e têm poder de fogo para chatear os americanos com a ameaça de cortar o financiamento de sua dívida. Provavelmente não o farão, mas, quando falam sobre isso, conseguem ser ouvidos. A viagem do presidente Lula à China mostrou, mais uma vez, a enorme diferença entre as concepções de política internacional do governo petista e os valores da diplomacia chinesa. Os efeitos práticos da visita foram modestíssimos, como se previa. O financiamento obtido pela Petrobrás já estava praticamente acertado. Desde o começo do ano a empresa vinha negociando aportes de capital em troca de garantia de suprimento de petróleo. Essa orientação havia sido revelada pelo presidente da estatal, Sérgio Gabrielli, em janeiro, durante a reunião do Fórum Econômico Mundial em Davos. A autorização para a venda de carne de frango foi a grande realização comercial associada a essa viagem. Outras carnes continuam fora do comércio Brasil-China. O bloqueio da venda de aviões da Embraer não foi removido. Os investimentos anunciados - os primeiros, em muito tempo - são apenas compatíveis com a estratégia chinesa de suprimento de matérias-primas e de bens intermediários. Essa mesma estratégia tem comandado a presença chinesa na África e os acordos de livre comércio com dois países sul-americanos, o Chile e o Peru. Se essa for a política mantida para a América do Sul, não terá o menor sentido um acordo semelhante com o Mercosul, como se comentou durante a viagem. Insumos básicos a China comprará de qualquer maneira, enquanto continuar crescendo aceleradamente. A abertura para um comércio mais diversificado não foi discutida seriamente, até porque os seminários econômicos previstos para os dias da visita foram esvaziados. Foi uma tolice fazer cara de choro porque o presidente Hu Jintao recusou-se a receber o chanceler brasileiro, Celso Amorim, antes da chegada do presidente Lula. Por que agiria de outra forma? Por ter recebido, antes, a secretária de Estado americana, Hillary Clinton? Em vez de guardar ressentimento, o governo brasileiro deveria ter aprendido a lição: os Estados Unidos são prioritários para a China. O Brasil não é. A China tornou-se o mercado número um para produtos brasileiros, nos últimos meses. Importou grandes volumes de matérias-primas, enquanto os outros grandes mercados estavam em recessão. Se os chineses não tivessem comprado, os preços teriam caído mais e o Brasil não teria para onde exportá-los. Os chineses sabem disso e têm consciência de sua posição vantajosa nessa relação. Mas o presidente Lula e seus estrategistas internacionais demonstram enorme resistência ao aprendizado. O presidente brasileiro encerrou a visita convidando os chineses para produzir etanol na África. Aceitem ou não, os chineses só decidirão com base em seus interesses. Já estão na África, onde exploram recursos naturais com mão de obra chinesa, e devem achar muito engraçada a proposta brasileira de uma aliança para salvação da África. O presidente Lula e vários de seus auxiliares parecem acreditar em coisas estranhas. Vivem proclamando sua crença em alianças do tipo Sul-Sul, defendem o ingresso dos bolivarianos para fortalecer o Mercosul e falam dos Bric como se Brasil, Rússia, Índia e China formassem um bloco de países com interesses convergentes. Mas essas quatro letras são apenas uma sigla, inventada por um economista para designar quatro países com possibilidades de assumir um peso muito grande na economia mundial. Dos quatro governos, só o brasileiro atribui a essas letras um significado geopolítico e, mais que isso, ideológico. Os outros, de vez em quando, fingem levar a sério essa esquisitice. No fundo, devem achar essa conversa muito engraçada. *Rolf Kuntz é jornalista

Rolf Kuntz*, O Estadao de S.Paulo

21 de maio de 2009 | 00h00

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