Lula diz que crise não afetou produção e varejo brasileiros

Em discurso, presidente questiona 'onde estão os trilhões de dólares que voavam de banco para banco'

Anne Warth, da Agência Estado,

21 de outubro de 2008 | 17h03

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse nesta terça-feira, 21, que a crise no sistema financeiro não afetou a produção e o varejo brasileiros. Sobre a contração do crédito, que já chegou ao País, Lula questionou para onde foram os recursos que estavam no mercado. "Essa crise já resultou num buraco de mais de US$ 3 trilhões e até agora o Brasil não quebrou, e até agora não estamos sentindo o efeito dessa crise na produção e nem no varejo. Nós estamos sentindo no crédito. Nós temos um problema de crédito porque eu não sei onde estão tantos trilhões de dólares que estavam voando de banco para banco, de papel para papel", afirmou, na comemoração dos 60 anos da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), na capital paulista. Veja também:Consultor responde a dúvidas sobre crise  Como o mundo reage à crise  Entenda a disparada do dólar e seus efeitosEspecialistas dão dicas de como agir no meio da crise A cronologia da crise financeira  Dicionário da crise   Lula comparou a situação a uma dança de cadeiras entre os banqueiros. "De repente, sabe aquela brincadeira em que colocamos cinco cadeiras e seis pessoas? E todo mundo senta nas cadeiras e um fica de pé? Eu acho que os banqueiros fizeram isso. De repente, o dinheiro desapareceu. Não tem crédito na Alemanha, na França, Inglaterra, Brasil. Onde foi esse dinheiro?", ironizou. Lula disse que a crise é uma oportunidade para que o Estado passe a ter influência no sistema financeiro internacional e aproveitou para ironizar os críticos da participação do Estado na economia. "O mercado, que poderia resolver tudo, e que ditou regras nos últimos 30 anos à sociedade, no primeiro fracasso recorre ao paizão, que é o Estado", alfinetou. O presidente afirmou que os países periféricos não estão envolvidos na crise financeira e estão dando solidez para a economia mundial. Ele reafirmou que o governo não lançará mão de um pacote, mas enfrentará os problemas de forma pontual, na esperança de que as ações anunciadas pelos bancos centrais norte-americano e europeus surtam efeito. Lula citou que o Banco Central (BC) e a equipe econômica estão trabalhando com muito esforço para evitar que a crise afete o desenvolvimento do País. Ele ressaltou a importância da manutenção do crédito para a população, uma vez que o mercado interno é um instrumento fundamental para manter a economia aquecida. "Tem gente que acha que sou muito otimista, que eu deveria falar com menos otimismo. Eu não posso. Imagine você visitar um companheiro no hospital que está em fase terminal, você sentar na beira da cama e dizer: ontem morreu um cara assim igual a você", comparou, sob riscos dos pesquisadores. "Ou o médico que está tratando o cidadão: olha companheiro, eu acho que de amanhã você não passa, viu. Desse seu negócio aí já morreram 20 nesse leito", acrescentou. Lula citou que o governo já reforçou o crédito para a agricultura e que instituições como o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Banco do Brasil (BB) e Caixa Econômica Federal (CEF) estão fortalecidas e já adquiriram carteiras de crédito de bancos de investimento em dificuldades. "E vamos comprar mais", garantiu. Ele lembrou ainda a redução do compulsório para elevar as linhas de créditos dos bancos, o auxílio do Banco do Brasil no sentido de prover liquidez para os exportadores no exterior e a manutenção de um nível elevado de reservas internacionais. Sem citar nomes, ele reclamou de pessoas que estariam torcendo para a crise chegar ao País para testá-lo. "Eu acho um absurdo, porque se a crise chegar no Brasil, não é o Lula que vai perder, é o povo e o País", declarou. Ao final de seu discurso, Lula disse que espera fazer seu sucessor para que as ações de seu governo tenham continuidade e voltou a dizer que registrará em cartório, em dezembro de 2010, juntamente com seus ministros, todas as ações e projetos de seu governo. O objetivo, disse ele, será "mudar o patamar do próximo governo". "Ou seja, eles sabem que vão ter que fazer mais. O que não foi feito não foi feito, os outros podem fazer, mas o que foi feito pode servir de paradigma para quem vier depois", afirmou. Lula disse que essa atitude é importante porque "a competitividade é inerente ao ser humano". "Então alguém pode dizer: puxa vida, eu com três diplomas não sei da onde, pós-graduação em Harvard, vou ter que fazer mais que o Lula na área da educação", exemplificou.

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