Lula e Kirchner se reúnem hoje para falar de Mercosul

Em meio ao tiroteio cruzado entre a Argentina e o Uruguai, com balas perdidas contra o Mercosul, os presidentes Néstor Kirchner e Luiz Inácio Lula da Silva vão se reunir nesta terça-feira, em São Paulo, numa tentativa de salvar o bloco regional. A chancelaria argentina afirma que a reunião servirá para tratar de temas de interesses comuns "da agenda bilateral" e retomar a conversa sobre a construção do gasoduto do sul, a qual havia sido prevista para o último 11 de março, em Mendoza, com a presença também de Hugo Chávez, da Venezuela. No entanto, uma fonte da Casa Rosada admite que a reunião é uma mostra de que "a afinidade entre Kirchner e Lula reafirma a vontade para fortalecer o bloco" regional. O encontro entre Kirchner e Lula, na terça, e com Chávez, na quarta, ocorre uma semana depois da cúpula de Assunção, que excluiu o Brasil e a Argentina. O presidente argentino não escondeu a fúria pela reunião entre os presidentes da Bolívia, Venezuela, Uruguai e Paraguai, como criticou o analista político Joaquim Morales Solá, em artigo publicado pelo jornal La Nación. Morales Solá opina que "Bush está ganhando batalhas na América Latina sem tomar-se o trabalho de lutar", em referência às divisões no bloco regional e à saída da Venezuela da Comunidade Andina das Nações (CAN), devido às negociações comerciais do Peru e da Colômbia com os Estados Unidos. No mesmo sentido, o cientista político Rosendo Fraga, do Centro de Estudos Nueva Mayoria, afirma que a briga da Argentina e do Uruguai e a cúpula de Assunção "aprofunda a crise dos três grupos regionais da América do Sul". Ele lembra que os dois países andinos que participaram do encontro são os que não negociam com Washington. Do encontro participaram só Uruguai e Paraguai, os dois sócios menores do Mercosul, que mantêm uma posição critica em relação ao bloco. Fraga destaca que estes dois "estão mais próximos da negociação com os Estados Unidos do que com a Argentina e o Brasil, os dois sócios maiores". Conflitos Além disso, a crítica que o presidente uruguaio Tabaré Vázquez fez contra o Mercosul, ao afirmar que o bloco não serve para os interesses de seu país, foi a mesma que Chávez desferiu contra a CAN antes de desvincular-se do bloco. "As duas situações de aprofundamento da crise da CAN e do Mercosul estão mostrando a inviabilidade da União Sul Americana de Nações, como entidade regional", opina Fraga. Por outro lado, continua, "está mostrando o aumento da liderança regional de Venezuela, em função da energia deste país e a personalidade política de Chávez, que está ocupando mais espaço regional que Brasil e Argentina". Paraguai é o mais resistente a continuar no Mercosul. Na chancelaria paraguaia, um diplomata disse que se "o Brasil e a Argentina não desenharem uma proposta atraente para o país, não teremos problema em deixar o bloco". Na cúpula de Assunção, o presidente Nicanor Duarte Frutos se queixou do tratamento que o Brasil lhe dispensa e disse que o Tratado de Itaipu precisa ser reformado para "dar maior justiça" ao Paraguai. Duarte Frutos quer que o Brasil aceite uma maior redistribuição de dinheiro ao Paraguai, salvando a diferença dos US$ 275 milhões de royalties e compensação que recebe em troca das perdas de US$ 3,8 bi por não vender energia a terceiros países. Para ele a integração regional, como o contrato de fornecimento de energia ao Brasil, não rende benefícios econômicos ao Paraguai. Por outro lado, o analista Jorge Castro, do Instituto de Planejamento Estratégico, afirma que "a crise Uruguai-Argentina já tornou-se internacional, pois além de envolver o Mercosul, envolve a Europa".

Agencia Estado,

25 Abril 2006 | 01h39

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