Lula faz mea-culpa sobre derrotas eleitorais

O presidente de honra do PT, Luiz Inácio Lula da Silva, lançou hoje um desafio aos participantes do 2.º Fórum Social Mundial, que acontece na capital gaúcha: descobrir quais as razões de suas derrotas. "Se temos tanta razão, por que tanta dificuldade para ganhar as eleições?", perguntou o provável candidato do PT à Presidência. Ao lembrar que já sofreu três derrotas, Lula foi taxativo. "Não podemos achar que nossas dificuldades estão apenas nas virtudes dos adversários e não apenas nas nossas fraquezas." Para ele, o problema não é apenas político. "É cultural, é de pele, chega a ser de raiz e a gente não consegue vencer", insistiu.Lula fez as afirmações ao participar do debate "Um outro Brasil é possível", nome com o qual batizou seu programa econômico. Ele fez um discurso duro, de 30 minutos, com muita autocrítica e pouca condescendência com os próprios petistas. "Muitas vezes procuramos defeito nos outros e esquecemos de olhar para dentro de nós para ver se estamos ou não fazendo a coisa certa", cobrou.Na prática, o que Lula fez foi mandar um recado: aos 56 anos, quer carta branca para imprimir um tom mais light na campanha. "Quando a gente está de cabelo branco, determinado tipo de discurso não é mais levado a ferro e fogo", admitiu, ao contar a história de um companheiro que lhe pediu para radicalizar nas palavras de ordem. "Ele me disse que, para ganhar a eleição, eu deveria falar que vou reestatizar as empresas privatizadas, não pagar a dívida externa, estatizar o sistema financeiro. Aí eu falei: com esse discurso, se você for candidato eu o apóio, mas para mim não dá."Discurso do líder petista é aplaudido de péDiante de uma platéia composta por 1.500 pessoas de várias nacionalidades, Lula ressaltou que um outro mundo somente será possível quando houver "um novo jeito de fazer política". Foi aplaudido de pé. "O Estado brasileiro é soberano e não pode estar subordinado à ingerência de nenhuma potência, seja ela capitalista ou socialista", disse. A economista Maria da Conceição Tavares (PT) foi na mesma linha. "Nós não estamos com um programa socialista, mas de ruptura social, política, de democratização do Estado e de soberania nacional", argumentou. Ela ainda alfinetou a governadora do Maranhão e presidenciável do PFL, Roseana Sarney. "Se o Lula ganhar a eleição, podem ficar tranqüilos que ele vai governar para todos os Estados, sobretudo para o Maranhão", provocou.Na opinião do economista Luiz Gonzaga Belluzo, que não é filiado ao PT, sem uma ruptura política não haverá mudanças significativas no Brasil. "Um amigo me disse que nosso problema é não ter uma classe dirigente como a dos Estados Unidos, mas eu acho que lá tem é uma gangue, uma mistura de bucaneiros com caipiras", ironizou. Antes do debate, Lula teve um dia de candidato voltado para questões internacionais. Recebeu uma comitiva de chineses no hotel onde está hospedado. "Eles são de uma organização não-governamental, e não do Partido Comunista", apressou-se em dizer o presidente do PT, deputado José Dirceu (SP). Depois, almoçou com dois ministros e um senador franceses, além do secretário-geral do Partido Socialista daquele país, François Hollande. Estava acompanhado da prefeita de São Paulo, Marta Suplicy, e do governador do Rio Grande do Sul, Olívio Dutra.

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