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Thiago de Aragão: China traça 6 estratégias para pós-covid que afetam EUA e Brasil

Lula já sonha em influir na política de preços da Opep

Em reunião de cúpula, presidente afirma que não abandonará biocombustíveis com descoberta de reserva

SANTIAGO,

10 de novembro de 2007 | 14h03

A descoberta da megarreserva de petróleo na bacia de Santos modificou o tratamento recebido pelo Brasil nos foros internacionais. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse que foi tratado "com uma certa deferência" por seus colegas chefes de Estado que participaram, na capital chilena, da 17ª Cúpula Iberoamericana, que se encerra neste sábado, 10. "Veja, eu agora estou sendo chamado de xeque do petróleo", comentou, rindo.   Veja também:  Nova regra tira múltis do leilão de petróleo  Veja especial sobre a descoberta da Petrobras    As novas reservas, avaliou ele, são uma "dádiva de Deus", pois aumentarão as chances de o Brasil engatar um período de crescimento econômico consistente. O País passa também a ter mais peso no cenário mundial. "É o coroamento de um País que esteve a ponto de desabrochar e que muitas vezes murchava", disse. "Estamos vivendo um momento bom na economia e essa descoberta de uma reserva excepcional, de um petróleo de qualidade, de muito gás coloca o Brasil numa situação altamente privilegiada."   Ele já sonha até em influir nas políticas da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep). "Vamos brigar para baixar o preço", anunciou.   O Brasil ainda não faz parte da entidade, porque não é exportador líquido de petróleo. Porém, a descoberta da reserva Tupi, que elevará em 50% o volume das reservas petrolíferas brasileiras, permitirá que o País venda parte de sua produção e, nessa condição, se torne um membro da Opep. Isso, porém, só ocorrerá depois de 2013, quando o novo campo começará a produzir. "Não será no meu governo", reconheceu Lula.   "Obviamente que temos interesse de participar de um foro desse, em que se pode definir políticas para o mundo inteiro." Ele acha que os países produtores devem receber um "preço justo" por sua produção, mas também não devem enriquecer às custas das nações pobres e sufocar seu desenvolvimento econômico.   Na véspera, o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, havia proposto a criação de uma "Petroamazônia" ou uma "Petrosul", juntado os países exportadores da região e defendeu a redução dos preços. Segundo o venezuelano, tal proposta agora seria viável, já que Lula havia se tornado um "magnata petroleiro." Lula disse que Chávez fez muitas brincadeiras. "Eu disse a ele que antes de eu tirar um litro do meu petróleo ele já tinha socializado meu petróleo para a Petrocaribe. Deixa eu primeiro tirar um litro de petróleo pelo menos!"   A provocação de Chávez acabou recebendo uma resposta da presidente do Chile, Michelle Bachelet. "Ela brincou com ele e perguntou por que ele não reduziu o preço do gás na Opep", contou Lula. O Chile enfrenta o problema da escassez do gás, com o agravante que a Bolívia não quer lhe vender o combustível enquanto não lhe for assegurada uma "passagem soberana" para o Pacífico.   Biocombustíveis   A recente condição de potência petrolífera não levará o Brasil a abandonar seu programa de biocombustíveis, afirmou Lula. "O Brasil não vai diminuir em nenhum milímetro a sua política de biocombustiveis", afirmou. Na sua avaliação, é do interesse do País possuir a matriz energética mais diversificada possível.   Lula disse que o governo está elaborando um programa que define as áreas onde podem ser cultivadas as plantas a partir das quais serão produzidos o álcool e o biodiesel. Na Amazônia, informou ele, só será permitido o plantio do dendê, que é uma planta da região, para produzir óleo. "Não haverá cana de açúcar, não haverá soja na Amazônia", afirmou. "Vamos aproveitar e preservar aquilo e fazer com que a riqueza da biodiversidade possa contribuir para que a gente possa ganhar dinheiro à custa da preservação da Amazônia com modelo de desenvolvimento adequado, com manejamento de nossa floresta."   O plantio de cana nas áreas degradadas por pastagem na Amazônia colocou em lados opostos o ministro da Agricultura, Reinhold Stephanes, e a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva. Ela quer proibir o plantio em toda a região amazônica e também no Pantanal. Resta saber o que será feito com a cana plantada pela usina Álcool Verde, localizada no Acre, um projeto implantado com apoio do ex-governador Jorge Viana (PT). A usina deverá começar a produzir açúcar, cana e eletricidade com queima de bagaço a partir do ano que vem.   Bolívia   Em sua nova condição de xeque, Lula recebeu o presidente da Bolívia, Evo Morales, para tratar da retomada dos investimentos naquele país. "Interessa ao Brasil, como maior país da América Latina, que a gente viva em clima de paz e harmonia com um país com uma extensão fronteiriça como tem a Bolívia com o Brasil", afirmou Lula. "Queremos ajudar a industrializar a Bolívia." A retomada dos investimentos da Petrobrás naquele país, disse Lula, visam a garantir o abastecimento futuro não só dos dois países, mas também de seus vizinhos Chile e Argentina.   Lula confirmou que estará em La Paz no dia 12 para retomar os acordos com o país. Pretende levar consigo uma delegação de empresários. Um dos projetos que está em estudos é a instalação de um pólo gás-químico na região de Corumbá (MS) e Puerto Suárez, do outro lado da fronteira. Também foi aprovada uma linha de financiamento de R$ 35 milhões para a compra de tratores pela Bolívia.   O presidente afirmou que a retomada dos investimentos no País vizinho nada tem a ver com sua relação pessoal com Evo Morales. "Somos amigos, somos dirigentes sindicais, mas a relação não é entre Evo e Lula, a relação entre o Brasil e a Bolívia tem de ser definitiva, tem de ser duradoura, não pode terminar com o mandato do presidente", disse. Os contratos, afirmou, devem representar uma relação de Estado a Estado.   Sem entrar em detalhes sobre a conversa com Evo, Lula comentou que os dirigentes amadurecem em seu relacionamento com o mundo. "Todos aprendemos a ir melhorando nossas relações internacionais", disse. O comentário nos bastidores é que, depois dos ataques à Petrobrás, Evo Morales buscou se reaproximar de Lula porque não recebeu os investimentos prometidos por Hugo Chávez.

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