Jason Lee /Reuters
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Lula não deve fechar acordo de moedas em visita a China

Autoridades brasileiras e chinesas dizem que pacto para comércio binacional sem uso do dólar não deve sair

Hélio Barboza, da Agência Estado,

19 de maio de 2009 | 09h08

Brasil e China não devem assinar acordos relacionados a moedas durante a visita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva a Pequim, disse uma autoridade da delegação brasileira à agência Dow Jones. Declaração semelhante foi dada por uma autoridade do Banco do Povo da China. Lula iniciou um dia de reuniões com líderes chineses nesta terça-feira, durante as quais, analistas acreditam o presidente brasileiro irá colocar em discussão um plano para eliminar a utilização do dólar no comércio entre o Brasil e a China.

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Lula se encontra com seu colega chinês Hu Jintao, o primeiro-ministro Wen Jiabao e outros líderes para conversas sobre o fortalecimento dos negócios com a China e a promoção de uma cooperação mais estreita para combater a crise financeira global. Mais cedo, ele inaugurou um centro de estudos brasileiros em Pequim. Todos os olhos estão voltados, porém, para a possibilidade de um acordo entre a China e o Brasil a fim de eliminar o dólar no comércio bilateral e substituí-lo pela moeda de cada país - o yuan e o real.

"É absurdo que duas nações comerciais importantes como as nossas continuem a fazer nosso comércio na moeda de um terceiro país", disse Lula, numa entrevista publicada na edição mais recente da revista chinesa Caijing.

Lula já discutiu a proposta com Jintao na reunião do G-20 em abril e disse que voltaria a tratar do tema durante sua visita à China, no que seria mais um desafio ao status do dólar como principal moeda do mundo. Já em março, o presidente do banco central da China, Zhou Xiaochuan, havia causado polêmica ao sugerir a eliminação do dólar como moeda de reserva global e sua substituição por um padrão diferente, administrado pelo Fundo Monetário Internacional (FMI).

"Todo mundo já percebeu que as crises de dívida e de moeda em muitos países e a crise econômica global estão ligadas ao padrão dólar", disse Zuo Xiaolei, economista da corretora Galaxy Securities, em Pequim.

Os presidentes dos bancos centrais chinês e brasileiro devem se reunir em breve para discutir a questão, segundo o jornal britânico Financial Times, que citou uma fonte do banco central brasileiro. O economista independente Andy Xie disse que um acordo inicial para que parte das transações bilaterais sejam realizadas em yuan e em real pode ser fechado após as conversas desta terça-feira entre Lula e os líderes chineses.

Zuo Xiaolei foi mais cautelosa sobre a data do acordo, mas disse que o plano é viável. "É improvável que eles mudem o sistema monetário global da noite para o dia, por isso o que estão tentando fazer agora é algo regional e defensivo", afirmou a economista.

Em março, a China tornou-se o maior parceiro comercial do Brasil, superando os EUA. As exportações brasileiras para a China - principalmente minério de ferro e produtos de soja - cresceram neste ano 65% em relação ao mesmo período do ano passado, saltando de US$ 3,4 bilhões para US$ 5,6 bilhões.

A visita de Lula, que vem de uma viagem à Arábia Saudita e depois segue para a Turquia, também tem o objetivo de reforçar a cooperação política num momento em que se amplia o papel das principais nações emergentes no combate à crise financeira global.

Num artigo publicado na edição desta terça-feira do China Daily, jornal oficial chinês, Lula diz que o fortalecimento das alianças econômicas e diplomáticas com outros importantes países em desenvolvimento é um pilar da política externa do Brasil. "Os desafios sistêmicos que a economia mundial enfrenta sublinham as crescentes responsabilidades das economias emergentes", diz o artigo do presidente brasileiro. "Esforços concertados e diálogo entre os países em desenvolvimento serão exigidos para que sua voz seja cada vez mais ouvida no cenário global."

Xie observou que Lula é um forte defensor do aumento do papel dos BRIC - Brasil, Rússia, Índia e China - no cenário internacional. "O colapso econômico atingiu muito duramente o Brasil e há um sentimento geral de indignação que nós percebemos nele (Lula), indicando que isso é culpa dos países ricos", disse o economista. As informações são da Associated Press e da Dow Jones.

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