Lula questiona ministros e usineiros sobre aumento do álcool

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva mobilizou os ministros das Minas e Energia, Silas Rondeau, e da Agricultura, Luís Carlos Guedes Pinto, para que cobrem explicações dos usineiros sobre o aumento repentino dos preços do álcool hidratado no final do ano passado. De acordo com o Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea/USP), que monitora os preços nas usinas, o preço médio do litro do hidratado aumentou 4,59% na última semana de 2006 nas unidades produtoras paulistas e acumulou alta de 12,91% ante a última semana de novembro.Já nos postos do Estado de São Paulo os preços foram reajustados em R$ 0,10 em média e variam, na maioria dos estabelecimentos, de R$ 1,29 a R$ 1,39 o litro. Ao serem questionados por Lula, os ministros procuraram as respostas junto aos executivos da União da Indústria da Cana-de-açúcar (Unica), que representa os usineiros.Tanto o diretor da entidade, Antonio de Padua Rodrigues, quanto o presidente, Eduardo Pereira de Carvalho, foram indagados sobre o aumento pelos ministros. Segundo Rodrigues, a alta no preço ocorreu por um crescimento pontual e imprevisto na demanda de álcool hidratado por parte das distribuidoras em dezembro de 2006. "Dentro dos parâmetros"O ministro da Agricultura avaliou, por meio de nota distribuída por sua assessoria de imprensa, que os aumentos do álcool nas usinas e nos postos de combustíveis "foram um pouco elevados, mas estão dentro dos parâmetros normais do mercado". "Como qualquer outro produto de origem agrícola, o valor do álcool incorpora os custos de carregamento dos estoques e está sujeito aos efeitos da sazonalidade", comentou.Na avaliação de Guedes Pinto, não há justificativas no mercado para aumentos elevados nos preços do álcool, tendo em vista o atual quadro de oferta e demanda. "Esperamos que as cotações se mantenham conservadoras até meados de abril, quando começa a nova safra", informou. Ele ressaltou que os estoques de álcool na região Centro-Sul estão em "níveis bastante confortáveis". "Começamos o ano com estoque de passagem 4,78 bilhões de litros e temos uma previsão de chegar no início da safra com cerca de 500 milhões de litros. Isso nos permite afirmar que temos um volume muito confortável para atender o consumo, sem qualquer tensão na regularidade de abastecimento", afirmou. BicombustíveisO ministro citou fatores para justificar a alta verificada nos últimos dias nos preços do álcool. O preço do álcool relativamente favorável em comparação com o da gasolina (hoje, em São Paulo, em torno de 52,47%) foi o primeiro motivo citado pelo ministro, que também lembrou do crescimento da demanda decorrente do período de festas de fim de ano e as férias escolares. Guedes Pinto também comentou que a frota de carros bicombustíveis (flex fuel) chegou a 2,5 milhões de veículos e que por causa do "apagão aéreo" a população optou pelo transporte rodoviários.Para ele, os usuários de veículos flex fuel podem contribuir para regular o mercado. "A dimensão da frota de veículos flex fuel, em que os motoristas podem escolher o combustível de acordo com os preços desses produtos, cria um mecanismo automático de regulação de preços para o etanol. Isso porque, em caso de aumento exagerado das cotações, eles têm a alternativa de migrar para o combustível que tiver um valor mais vantajoso, no caso a gasolina", comentou. MisturaO ministro lembrou ainda que o álcool anidro, que é usado na mistura na gasolina na proporção de 23%, tem mantido os preços estáveis, sem qualquer pressão de alta. "Esse é mais um indicador para comprovar que os aumentos do hidratado, usado como combustível direto, está relacionado a fatores ocasionais". Na nota, o governo não informa se haverá mudanças na adição de álcool na gasolina. Em momentos de escassez interna, o governo reduz a mistura como forma de elevar a oferta de álcool.O porcentual de 23% vale desde novembro. Por lei, a mistura pode oscilar de 20% a 25%, decisão que depende de autorização dos ministros que integram o Conselho Interministerial do Açúcar e do Álcool (Cima): Agricultura, Fazenda e Minas e Energia, além do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior. Com o porcentual de 25%, a demanda mensal por anidro chega a 500 milhões de litros, mostram cálculos do ministério. Uma eventual redução para 20% reduziria o consumo para 400 milhões de litros. DistribuidorasNa avaliação do vice-presidente do Sindicato Nacional das Empresas de Distribuição de Combustível e Lubrificantes (Sindicom), Alísio Vaz, o alto preço do álcool retrai as distribuidoras. "Tem muita gente oferecendo álcool por um preço caro e as empresas (distribuidoras) estão retraídas, negociando com os clientes e comprando em pequenas quantidades", explicou o executivo.Ele afirmou que o aumento do preço do álcool hidratado em dezembro ocorreu por um crescimento pontual na demanda pelo combustível usado nos carros a álcool ou flex fuel. O vice-presidente do Sindicom também citou a crise aérea como um dos fatores para explicar o aumento da demanda, já que muitas pessoas que iriam viajar de avião optaram pelo uso de carros. Vaz considerou ainda "natural" a alta do preço do álcool em virtude do período de entressafra da cana-de-açúcar no Centro-Sul, quando o combustível não é produzido. "Todo produto agrícola na entressafra é mais caro e quem o estocou quer ser remunerado por isso. Mas, de forma alguma, a crise do início de 2006 irá se repetir agora, pois há muito álcool no mercado e a produção foi muito boa", concluiu.

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