Lula reafirma críticas ao álcool do milho

Intenção é diferenciar produção brasileira da americana

Tânia Monteiro, O Estadao de S.Paulo

22 de abril de 2008 | 00h00

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva deu ontem novos sinais de que a aliança com os Estados Unidos para promover o etanol virou um mau negócio por causa do uso do milho pelo produtores americanos. Ontem, ao encerrar a visita de três dias a Gana e participar em Acra da reunião da Unctad (agência da ONU para comércio e desenvolvimento), Lula foi taxativo: "Nós achamos, desde o começo, que produzir biocombustível de alguma coisa (milho) que sirva para ração animal ou humana não é prudente porque você vai encarecer o preço do porco, o preço do frango. Ou seja, não compensa e o melhor é olhar outras oleaginosas".Para diferenciar a produção brasileira e americana, Lula acrescentou: "O etanol da cana-de-açúcar que produzimos é sete vezes mais eficiente do ponto de vista energético do que o etanol à base de milho". E emendou: "A produção brasileira não envolve subsídios, não ameaça a região amazônica e não reduz o volume de alimentos". Ao falar da eficiência, o presidente referia-se à quantidade de energia comum (petróleo ou elétrica) usada para produzir etanol de milho. "Na política de biocombustíveis só tem um equívoco: a decisão americana de produzir álcool do milho", já havia dito o presidente em entrevista concedida no fim de semana.Questionado sobre se a cruzada em defesa do etanol de cana se devia ao fato de que o Brasil perdera a guerra da informação no mundo e precisava reagir, o presidente declarou: "Primeiro, a batalha nem começou. Ainda estamos na fase das estratégias intelectuais, ou seja, dos cientistas. Eu acho que é uma guerra em que o mundo vai ganhar. Não é o Brasil. O Brasil apenas é o espelho mais forte do que pode acontecer com o biodiesel no mundo".O chanceler brasileiro, Celso Amorim, destacou que o Brasil aumentou a produção de alimentos paralelamente ao aumento da produção de etanol. Pediu que a discussão sobre os biocombustíveis seja feita de maneira "desapaixonada e lúcida, sem manipulações sobre esse tema". E acrescentou: "O que não pode, num momento como esse, em que estamos lutando para acabar com os subsídios agrícolas, ou pelo menos para reduzir esses subsídios, é existir essa tática diversionista a dar a impressão que tem outra razão que está impedindo o desenvolvimento agrícola nos países em desenvolvimento".Para Amorim, "tudo isso é uma tremenda cortina de fumaça para encobrir as verdadeiras causas da fome nos países em desenvolvimento", pois o problema pode existir na utilização de algumas matérias-primas de biocombustíveis, como é o caso de milho, que é uma fonte de alimento. Mas ressalvou que não se aplica, certamente, à cana-de-açúcar no Brasil. "O importante de você poder começar a usar o biocombustível é criar mercado e, com ele, você cria renda nesses países."Pela manhã, no programa Café com o Presidente, transmitido diariamente no Brasil, Lula rebateu críticas de que a produção de biocombustíveis reduz a área plantada de alimentos e causa alta nos preços dos produtos. "Nós não aceitamos que haja meia conversa sobre a questão do aumento dos alimentos", disse. Lula afirmou que os países ricos precisam flexibilizar no preço dos produtos agrícolas. "Do jeito que está hoje, com o forte subsídio dos Estados Unidos e da União Européia aos seus agricultores, obviamente que fica difícil os países pobres venderem algum alimento."

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