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Lula sonha com Barbelles na Fazenda

Sonhos são sonhos. Não têm de ter respaldo na realidade. Lula quer Joaquim Levy fora do governo. Mas o novo ministro da Fazenda com que sonha não tem contrapartida no mundo real. A figura que Lula vislumbra em seus devaneios é um ser híbrido, que tem a cabeça de Nelson Barbosa e a reputação de Henrique Meirelles.

Rogério L. Furquim Werneck, O Estado de S.Paulo

20 de novembro de 2015 | 02h04

Lula vem arguindo que o "prazo de validade" de Levy venceu. Que, fixado na ideia de ajuste fiscal, o ministro acabou aferrado a um discurso de desesperança, impossível de vender. Embora o ajuste fiscal ainda esteja por ser feito, Lula acha que é hora de ter à frente da Fazenda alguém que se disponha a adotar políticas de estímulo à demanda, que permitam ao governo vender esperança e alardear que já é possível vislumbrar a retomada da economia.

O ex-presidente está convencido de que Meirelles é o nome perfeito para desempenhar esse papel. Mas Dilma resiste. Ela nunca se deu bem com Meirelles. Oito anos de penosa convivência dos dois, quando ambos ocupavam posições destacadas no governo Lula, só reforçaram essa falta de empatia.

Por ser isso tão notório, Dilma tem consciência de que ceder a mais essa investida do ex-presidente seria a confirmação definitiva de que já não há mais limites para a intervenção de Lula em seu governo. Um passo desajuizado para uma presidente que luta desesperadamente para se manter no cargo.

Ademais, Dilma não parece estar convencida de que a guinada de política econômica preconizada por Lula seja acertada. Na posição delicada em que a presidente está, seu cálculo político já não se confunde com o de seu mentor. E, mesmo que estivesse convencida, ainda teria boas razões para se perguntar se Meirelles estaria de fato disposto a levar adiante o que Lula tem em mente.

Que Henrique Meirelles não confia em Dilma Rousseff parece mais que claro. Se confiasse, não teria exigido carta branca para nomear toda a equipe econômica, como tem sido noticiado. Dentre seus muitos entreveros com Dilma, ao longo dos dois governos Lula, Meirelles certamente não se terá esquecido de abril de 2008, quando, na esteira de uma conspirata desenvolvimentista orquestrada pela Fazenda e pela Casa Civil, quase foi ejetado do Banco Central. Acabou salvo pelo gongo, em 30 de abril daquele ano, quando se soube que a agência Standard & Poor's havia elevado a classificação de risco do País a grau de investimento. Com Lula eufórico com o "momento mágico" em que Brasil havia sido "declarado um País sério", a conspiração teve de ser abortada e Meirelles ganhou longa sobrevida no cargo. Atravessou todo o período em que a política econômica passou a ser conduzida sob a bandeira da Nova Matriz. E chegou incólume ao fim do segundo mandato de Lula.

Não estivessem na difícil situação em que se meteram, Lula e Dilma estariam plenamente de acordo quanto ao perfil do ministro que gostariam de ver na Fazenda. E prefeririam Barbosa a Meirelles. Mas tanto Dilma como Lula bem sabem que, a esta altura, a nomeação de Barbosa para a Fazenda pode ser a gota d'água.

O que Lula contempla, agora, é a possibilidade de que alguém com a reputação de Meirelles se disponha a fazer boa parte do que Barbosa faria na Fazenda. Mas estará Meirelles disposto a desempenhar esse papel?

Ante as dificuldades de convencer Meirelles a se juntar a um governo quase desenganado, para conduzir uma política econômica em que não acredita, Lula já não sabe o que mais lhe prometer. Em coluna no Valor de 11/11, Cristiano Romero mencionou que emissários de Lula chegaram até a acenar com a ideia de Meirelles vir a ter no governo Dilma a trajetória que FHC teve no governo Itamar, sugerindo que seu sucesso como ministro da Fazenda poderia lhe levar à Presidência da República. Por maiores que sejam suas ambições políticas e por mais envaidecido que possa ter ficado com o vaticínio de um final de carreira tão triunfal, é difícil que Meirelles se deixe seduzir por tal miragem. Mas impossível não é. A natureza humana é uma inesgotável caixa de surpresas.

ECONOMISTA, DOUTOR PELA UNIVERSIDADE HARVARD, É PROFESSOR TITULAR DO DEPARTAMENTO DE ECONOMIA DA PUC-RIO

 

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