Luz e sombra no quadro do PIB

Desta vez, vamos? É hora de festejar o bom desempenho da economia em 2007, confirmado pelas contas nacionais divulgadas ontem pelo IBGE, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Mas a pergunta é indispensável e a resposta não é simples. O ministro da Fazenda, Guido Mantega, deu logo a sua: já está implantado, segundo ele, um ciclo de crescimento econômico, e a expansão continuará nos próximos anos. Em geral mais comedido, o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, também mostrou otimismo e até emitiu uma nota oficial para celebrar as boas novas. Em sua opinião, o País colhe os benefícios da estabilidade e entrou num ciclo de crescimento sustentado. Os números do ano passado, aproveitou para dizer, comprovam o acerto da política monetária. Meirelles e Mantega têm bons argumentos para sustentar seu otimismo, mas o cenário, não há como negar, ainda tem algumas sombras. A economia brasileira cresceu 20,6% em cinco anos, desde o começo da gestão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em 2003. A média anual foi 3,8%, muito inferior à dos países mais dinâmicos. Nesse período, a expansão do PIB superou 5% em 2003 e em 2007. Nos outros anos, ficou sempre abaixo de 4%. A questão é saber se as taxas crescentes, a partir de 2005 - 3,2%, 3,8% e 5,4% -, indicam uma tendência. Há pelo menos cinco fortes argumentos a favor de uma resposta afirmativa: 1) o investimento fixo tem aumentado mais velozmente que o PIB e sua variação no ano passado foi 13,4%; 2) há sinais de ganhos de produtividade em vários setores; 3) a ampliação do consumo está baseada numa clara expansão do mercado interno, sustentada pelo aumento do emprego e do bolo salarial e não só pelo crédito fácil e pelas transferências de renda; 4) apesar de algumas pressões, a inflação continua controlada e a política de metas tem dado certo; 5) o País acumulou reservas mais que suficientes para cobrir a dívida externa e há alguma gordura no balanço de pagamentos. Mas há também algumas zonas escuras, nesse quadro, e bons motivos para preocupação. Os investimentos em infra-estrutura, reconheceu ontem o ministro do Planejamento, Paulo Bernardo, são um dos pontos fracos do País. Ele disse confiar no Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), mas é difícil partilhar desse otimismo. É preciso engajar o setor privado nos projetos de infra-estrutura e, nesse ponto, a ação do governo continua insatisfatória. A oferta de energia nos próximos cinco anos continua a ser um bom assunto para apostas. Segurança, mesmo, só existe nas palavras de representantes do Executivo federal. A malha rodoviária permanece em mau estado e os custos de transporte são uma enorme desvantagem para os produtores nacionais. A taxa de investimentos, apesar do crescimento da formação bruta de capital, continua muito baixa. Ficou em 17,6% do PIB, em 2007, e praticamente não variou de um ano para outro. As empresas têm feito um esforço inegável, e razoavelmente bem-sucedido, para ampliar e modernizar seu parque de máquinas e equipamentos. Mas o setor público precisa aumentar sua taxa de poupança e para isso é indispensável uma revisão da política fiscal. O gasto público é ineficiente e o dinheiro coletado pelo Tesouro é, em grande parte, desperdiçado. Sem disposição política para mudar esse quadro, o governo se apropria de uma parcela crescente da produção nacional. Calculado pelo critério do valor adicionado a preços básicos, o PIB expandiu-se, no ano passado, 4,8%. Os impostos sobre produtos aumentaram quase o dobro, 9,1%. O crescimento de 5,4% resultou da combinação dessas duas taxas de variação. A contínua elevação da carga tributária é um risco evidente para a economia. Esse problema não será resolvido enquanto não houver uma decisão política de reestruturação do setor público e de suas finanças. Finalmente, há a alteração das contas externas. No ano passado, as exportações de bens e serviços cresceram apenas 6,6%, enquanto as importações aumentaram 20,7%. A causa principal é a deterioração da conta de mercadorias. Essa tendência vem-se acentuando, por causa da veloz depreciação do dólar. O problema cambial não é só brasileiro, mas no Brasil é especialmente grave, porque o produtor nacional carrega uma série de outras desvantagens - custos de logística, tributação irracional, excesso de burocracia, energia cada vez mais cara, etc. Bons preços para as commodities podem garantir um saldo ainda razoável em 2008. Mas é insano depender da conjuntura de preços para sustentar as contas externas. As zonas de sombra, como se vê, não são desprezíveis. *Rolf Kuntz é jornalista

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