Luz na escuridão?

Os brasileiros foram às ruas dizer não à corrupção, à presidente Dilma e ao PT, e apoiar o juiz Sérgio Moro, a Polícia Federal e o impeachment. Manifestações coloridas, muitas famílias com idosos e crianças, sem incidentes e conflitos. Democráticas! Podem ter sido a pá de cal num governo – que não é apenas do PT – que perdeu condições de governar e que assiste, paralisado, ao País afundar. Resgatá-lo já é difícil agora, e o será ainda mais se a agonia perdurar.

Antônio Márcio Buainain*, O Estado de S.Paulo

15 de março de 2016 | 06h00

Algumas das conquistas das últimas décadas, muitas obtidas durante as gestões do presidente Lula, já foram perdidas, e outras estão se dissipando rapidamente. A estabilidade da moeda está em xeque, a inflação de volta e seus efeitos já são sentidos pela maioria das famílias assalariadas, para quem o mês voltou a ser demasiado longo para um rendimento cada vez mais curto. Já se perderam os efeitos positivos da distribuição de renda e o mercado doméstico, base do modelo mágico de crescimento sem investimento adotado pela presidente Dilma, vem encolhendo dramaticamente, como confirmam as retrações recordes de vendas de veículos e do comércio varejista.

É preciso dizer que a crise fiscal, além dos efeitos negativos sobre a dinâmica da dívida pública, risco Brasil, etc., etc., compromete diretamente a prestação dos serviços públicos, já indecentemente deficientes, e que são determinantes da qualidade de vida da maioria da população: transporte, saúde, educação, habitação e segurança pública. E também afeta o futuro do País – por falta de investimentos que só o Estado pode fazer – e, por conseguinte, o nível de emprego corrente.

Estão abaladas a credibilidade do governo e a da política econômica, responsáveis pela estabilidade monetária, pela atração de investimentos e pelo crescimento da economia, sem o qual, em última análise, não é possível equacionar nenhum dos graves problemas correntes do País, e muito menos construir o futuro melhor que vem sendo prometido à população brasileira. E os que mais sofrem com esta situação são justamente os mais pobres, aqueles que o PT diz defender.

É óbvio que não cabe “deixar como está para ver como fica”, atitude muito comum em nossa cultura, e que algo precisa ser feito. Um dos nós é que os problemas não se resolverão com o impedimento da presidente, como tem sido vendido para a população que foi às ruas no domingo. Durante este longo ano de crise econômica e política as oposições não foram capazes de se unificar e construir, nem mesmo no papel, um programa de resgate do País, que explicitasse com clareza as medidas a serem tomadas, seus custos imediatos, como e por quem as contas serão pagas, os benefícios que poderemos obter e os riscos que corremos. Um programa que também servisse de base para mobilizar e preparar a população para enfrentar os desafios que nos esperam no futuro imediato, e principalmente para fazer as costuras políticas necessárias para implementar uma agenda mínima de resgate do País – em base a novos princípios, e não ao “toma lá dou cá” que vem prevalecendo no atual arranjo político que também está sendo vigorosamente repudiado pela população.

Minhas esperanças se mesclam com as dúvidas sobre o que acontecerá quando for revelado que a aprovação da CPMF é imperativa para, no curto prazo, reduzir o déficit público; que cortar gastos não significa só reduzir o número de funcionários inflados politicamente – muito menor do que de fato se propaga – e que será também necessário congelar salários e cortar programas que, mesmo ineficientes, atendem parte da população; que obras indispensáveis serão mais uma vez postergadas; que será preciso reformar a Previdência Social, cujas regras insustentáveis e injustas são defendidas por muitas corporações politicamente fortes; que a economia não reagirá sem mudanças nas leis trabalhistas e que o País se manterá ingovernável sem reformar o sistema político atual, que em última análise se alimentou da, e alimentou a, corrupção. E que tudo isso exige sacrifício e determinação. Teremos políticos à altura, ou convocaremos um novo salvador da Pátria?

*É PROFESSOR DE ECONOMIA NA UNICAMP

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