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José Roberto Mendonça de Barros
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Luz no horizonte

O primeiro trimestre do ano mostrou que a crise continua se aprofundando aceleradamente. Reafirmamos, mais uma vez, o que viemos dizendo desde setembro de 2015: é impossível manter essa situação por mais três anos.

José Roberto Mendonça de Barros, O Estado de S.Paulo

16 de abril de 2016 | 23h58

A entrada do ex-presidente Lula no governo, de fato, ainda que não de direito, embaralhou o jogo, mas não alterou o acima exposto. No momento em que este artigo foi escrito, é certo que a admissibilidade do impedimento da presidente da República será aprovada na Câmara dos Deputados.

Mesmo que o impedimento da presidente não passasse agora, um governo Dilma-Lula não se sustentaria, por pelo menos duas razões: é difícil imaginar uma convivência pacífica entre uma presidente legal, sem nenhum poder, e um ostensivo presidente de fato; e para segurar o impeachment, o negociador Lula está prometendo um governo de esquerda para a esquerda, um aumento expressivo do gasto público para a bancada fisiológica e, certamente, irá tentar vender uma carta aos brasileiros, versão 2016, para o setor empresarial. Nas condições de crise atual e exaustão total do Tesouro Nacional, trata-se de uma missão impossível.

A presidente Dilma Rousseff, neste processo, perdeu qualquer condição de interlocução e governança com o País. Sua ação ultrapassou todos os limites, como o de transformar o Palácio do Planalto em local de comícios. Ademais, tentando comprar apoio, ela está acabando com o que sobrou do Tesouro Nacional e não está se detendo perante nada. Basta pensar que se discutiu no centro do governo a hipótese de se baixar o preço dos combustíveis, o que acabaria por liquidar a Petrobrás, apenas para gerar uma “boa notícia” para os proprietários de veículos.

E o que poderá ser um governo Temer?

Teremos um grande choque positivo de expectativas, que decorre de uma parada nessa longa trajetória de queda do País e da economia que ocorre há alguns anos. Em particular, referimo-nos ao final de um sistema de poder que colocou a corrupção como instrumento fundamental de sua perpetuação. Seguramente, a governança do País vai melhorar, o que é essencial para se construir um futuro.

As expectativas serão tão melhores quanto mais claramente houver um compromisso sério para um governo de transição (isto é, Temer não seria candidato em 2018), o que elevaria a possibilidade de uma união nacional para sairmos do fundo buraco que foi cavado.

Nestes anos de crise e de deterioração econômica, clareou-se a agenda fundamental para o País. Trata-se de recuperar nosso regime fiscal, de sorte a acabar com a louca trajetória de expansão descontrolada da dívida pública. Ademais, é indispensável o desenho de um programa de reformas (como na área de Previdência) que possa trazer de volta a possibilidade de retomar o crescimento.

Finalmente, é absolutamente necessário um esforço organizado de ações que busquem uma redução importante no custo de fazer negócios no País, sem o que, os investimentos não retornarão. Como o desarranjo é profundo, é impossível um salto muito grande no futuro próximo.

É, portanto, muito importante que se selecione um conjunto de iniciativas nos três campos, que ponha em marcha o ajuste e solidifique as expectativas. Após as eleições de 2018, o novo governo teria o poder real de completar o serviço. Até lá, o que se pode esperar é estabilizar o PIB e ensaiar um início de recuperação.

Além das considerações anteriores, o que poderia dar suporte à estabilização do crescimento?

Antes de mais nada, existe claramente uma certa demanda reprimida pelo desânimo e pela incerteza, que poderá começar a se reverter se melhores expectativas se consolidarem. Esta melhora, ainda que modesta, afetará bens não duráveis, duráveis e até imóveis.

Em segundo lugar, as exportações crescentes e a continuidade na expansão do agronegócio são duas alavancas que já existem e que contribuirão para uma eventual retomada do crescimento, embora sozinhas não o possam fazer.

Em terceiro lugar, mesmo não sendo de imediato, uma boa revisão na regulação das concessões poderia afastar o receio de investidores em certos projetos de infraestrutura absolutamente necessários. Falo aqui da saída norte da soja de Mato Grosso, alguns trechos rodoviários e alguns terminais portuários, por exemplo.

Embora muitas empresas tenham desaparecido neste período difícil, chamo a atenção para três coisas positivas em meio ao vendaval: existem muitas empresas nacionais com estratégia bem definida e disciplina de capital e que vêm atravessando bem a presente crise. (Grupo Ultra, Hipermarcas, Raízen e Renner são exemplos, entre outros).

De outro lado, muitas empresas internacionais, que operam no Brasil há anos e daqui não têm intenção de sair, estão aproveitando o momento para consolidar e até expandir suas posições, uma vez que existem muitos ativos bons na praça.

Finalmente, para quem acompanha de perto a economia brasileira, observa-se que existem muitas empresas novas em vários setores. Não são companhias grandes (que sozinhas, evidentemente, não puxam o PIB), mas que têm muita capacitação tecnológica, vitalidade, produtos novos e modelos de negócios. Em muitos casos, são companhias que já nascem com visão e operação internacional.

Num cenário como esse, o sistema financeiro fica muito mais disposto a alongar dívidas e construir uma saída para muitas companhias boas, mas que se atrapalharam na travessia de toda essa turbulência recente.

Não podemos ter ilusões: o desafio de retomar as condições de crescimento é gigante, tal a desordem construída pelo governo Dilma, tijolo a tijolo. Entretanto, as considerações acima sugerem que, penosamente, poderemos começar a reconstruir uma estratégia de desenvolvimento.

JOSÉ ROBERTO MENDONÇA DE BARROS É ECONOMISTA E SÓCIO DA MB ASSOCIADOS. ESCREVE QUINZENALMENTE

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