Maçãs mais saborosas e mais caras este ano

Expectativa é colher 15% menos do que em 2007, mas esperança é grande para a demanda do mercado interno

Elder Ogliari, O Estadao de S.Paulo

16 de março de 2008 | 00h00

O brasileiro vai encontrar maçãs menores e mais saborosas no mercado este ano. O inverno frio e o verão seco, com dias de grande variação entre as temperaturas mínima e máxima nas regiões produtoras, os campos de altitude do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná, moldaram um fruto bonito, crocante e suculento, com alta concentração de açúcar. Segundo especialistas, os fatores que mais pesam na hora de comprar maçãs são o aspecto visual e o gosto, que faz o consumidor voltar às aquisições na mesma temporada - além do preço.Os produtores, que acabaram de colher a variedade gala e se preparam para começar a colher a variedade fuji, estão otimistas. O mercado está ajustado, com perspectiva de oferta menor do que a demanda. Os compradores do exterior, que costumam ficar com 10% a 15% da produção brasileira, podem até reduzir um pouco as encomendas, mas o mercado interno, com maior poder aquisitivo, tende a elevar seu consumo.As chuvas atrapalharam a ação das abelhas na época da polinização e um pequeno déficit hídrico conteve o crescimento da fruta no verão. Isso fez com que a expectativa de colheita no Brasil seja de 850 mil toneladas, 15% menos do que as 993 mil toneladas de 2007. No início do ano, caíram as importações de mercados tradicionais, como a Holanda, mas subiram as de novos mercados, como a Rússia e o Oriente Médio.Como a safra do hemisfério norte, colhida no segundo semestre de 2007, foi menor que a de 2006, há boa demanda internacional pela fruta. O preço médio chegou a US$ 0,65 o quilo nos dois primeiros meses, um aumento de 11% em relação ao mesmo período do ano passado. O mercado interno também está pagando mais. Nesta época de colheita, a de preços mais baixos do ano, a cotação da caixa de 18 quilos nos galpões de câmaras frias e embalagem (packing house) chega a R$ 19,45, 30% mais do que no mesmo período de 2007.Apesar de bons, os indicadores desta época ainda não remuneram a atividade. "O custo médio da caixa é de R$ 21,50", revela o presidente da Associação Brasileira de Produtores de Maçã (ABPM), Pierre Nicolas Pérès. Em dois meses, os produtores esperam entrar na fase de lucros, que tende a melhorar até o fim do ano. O preço vai subindo à medida que a oferta cai.O segmento movimenta cerca de R$ 900 milhões por ano. O mercado interno absorve de 85% a 90% da produção. Apesar de terem conseguido mudar a maioria de seus contratos do dólar para o euro, os exportadores não viram o lucro das operações externas aumentar. "Quando a moeda estrangeira, inclusive o euro, é convertida para o real, o resultado é menor", comenta Pérès.Mesmo assim, a manutenção de negócios no exterior é estratégica, para eventuais supersafras e para assegurar a presença da marca, consolidando canais alternativos de distribuição, diz o gerente comercial da Rasip, Anderson Secco Tholozan. "Boa parte dos produtores tem tradição e clientela no exterior", diz Laor da Silva Alves, diretor de outra empresa da área, a Rubifrut.POMARES Em Vacaria, segundo maior produtor brasileiro de maçãs, atrás apenas de Fraiburgo (SC), o gerente de fruticultura da Rasip Agro Pastoril S.A., Celso Zancan, confirma a boa qualidade da safra. "Este ano é excepcional e só pode ser comparado ao de 1999", diz, contente por ver que as 43 mil toneladas que a empresa vai colher terão tamanho, cor e aparência atraentes, pressão adequada à conservação de seis a oito meses em câmaras frias e altas doses de açúcar. "A (variedade) gala normalmente tem de 12,5 a 13,5 graus brix, enquanto a fuji tem de 13 a 15 graus brix", explica. "Nesta colheita, ambas pendem para o máximo."Apesar de reconhecer a importância do clima, Zancan diz que a condução do pomar também é decisiva. Depois de colhida, a fruta é armazenada em câmaras frias, de onde é retirada para classificação e venda, à medida que chegam as encomendas. Como podem ser conservadas por seis a oito meses, as empresas podem negociá-las com as distribuidoras durante o ano, com alguma margem para reter estoques até a entressafra, no último trimestre.TRABALHADORES Nos primeiros meses do ano, os pomares de Vacaria recebem cerca de 10 mil trabalhadores temporários para a colheita. Entre eles estão Orélio Teixeira de Souza, 49 anos, e Luiz Carlos Saldanha, 28 anos, ambos de Coronel Bicaco, a noroeste do Estado. Vão receber cerca de R$ 900 por mês, livres de custos com transporte, hospedagem e alimentação."Quando voltar, quero reformar a casa e pagar umas continhas no supermercado", diz Souza. "Com as colheitas de maçãs consegui fazer uma poupança para comprar um terreno", complementa Saldanha.AEROPORTOComo colhe cerca de 20% das maçãs brasileiras e também se considera o maior produtor nacional de pequenas frutas como morango, mirtilo, amora e framboesa e está aumentando seu cultivo de flores, Vacaria iniciou negociações com os governos estadual e federal para construir um aeroporto internacional de cargas. "Queremos fazer como Israel, colher de manhã e colocar o produto na Europa no mesmo dia", adianta o vice-prefeito Romeu Biazus (PT).

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