JUAN MABROMATA | AFP
JUAN MABROMATA | AFP

Macri admite que crise econômica vai ampliar a pobreza

Imposto sobre exportação será principal ferramenta para tentarzerar déficit público; pacote não impediu alta de 4,65% do dólar

Luciana Dyniewicz, O Estado de S.Paulo

04 Setembro 2018 | 05h00

Criticado pelo presidente argentino Mauricio Macri desde a época em que ele ainda era candidato à Casa Rosada, em 2015, o imposto sobre exportações agrícolas será ampliado para todos os setores exportadores e se tornará uma das principais ferramentas do governo para tentar zerar o déficit fiscal primário no ano que vem. A medida foi anunciada ontem, ao lado de outras de austeridade e de algumas de caráter social, que devem ser implementadas para reduzir os efeitos do aumento da pobreza, problema reconhecido por Macri em seu discurso.

“Com essas mudanças (na política econômica), começamos a superar a crise, cuidando sempre dos que mais necessitam, porque sabemos que, com a desvalorização (do peso, que já perdeu 50% de seu valor no acumulado do ano), a pobreza vai aumentar”, disse Macri.

A ampliação do imposto sobre exportações deve aumentar a arrecadação do país em 348 bilhões de pesos (R$ 38 bilhões) em 2018 e 2019. O dirigente argentino admitiu ontem, porém, que a taxação é “ruim”. “Mas tenho de pedir que entendam se tratar de uma emergência.”

Do lado dos gastos, o presidente pretende cortar investimentos, subsídios a serviços como transporte e congelar aumentos salariais do funcionalismo. Macri também confirmou que reduzirá o número de ministérios à metade.

Todas essas medidas serão apresentadas nesta terça-feira, 4, ao Fundo Monetário Internacional (FMI) como moeda de troca pelo adiantamento de parte do empréstimo de US$ 50 bilhões negociado em junho. Na semana passada, Macri anunciou que precisaria dessa antecipação, em um discurso sem detalhamento que foi mal recebido pelo mercado, gerando uma corrida contra o peso.

Ontem, a divulgação do pacote econômico também não foi suficiente para conter a desvalorização da moeda argentina. O dólar avançou 4,65% no país e fechou a 38,6 pesos. “Era feriado nos EUA e apenas o mercado de varejo funcionou. É preciso esperar amanhã (hoje) para ver a tendência da moeda”, disse a economista Soledad Perez, da consultoria Abeceb.

Decepção 

As medidas ficaram aquém das expectativas do mercado por se concentrarem em elevar receita e não em cortar gastos, segundo Edward Glossop, economista de América Latina da Capital Economics. “O imposto traz de volta a uma política mais intervencionista”, afirmou em relatório. Soledad lembra que o tributo recairá justamente entre os beneficiados pela desvalorização do peso.

Para o economista Fausto Spotorno, da consultoria Orlando Ferreres y Asociados, apesar de garantir de modo fácil um aumento da arrecadação, o tributo sobre exportação prejudicará, no longo prazo, a balança comercial do país, que já vem registrando déficit. “Não há incentivos para o exportador.” Spotorno projeta que a economia argentina recue 1,5% neste ano e que a inflação avance 40%.

Parte do pacote anunciado ontem servirá para reduzir os impactos da recessão entre a população mais pobre. Macri afirmou que os beneficiados por um programa semelhante ao Bolsa Família receberão um valor extra em setembro e em dezembro e que destinará mais verbas ao restaurantes populares. Há ainda a intenção de reforçar um programa de congelamento de preços de alguns produtos, principalmente os alimentos da cesta básica. /COLABOROU NIVIANE MAGALHÃES

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