Macri vai rever contratos com bancos

Presidente eleito não deve honrar compromissos que, com a iminente desvalorização do peso, podem causar prejuízo de US$ 7 bi ao BC

Rodrigo CavalheiroCORRESPONDENTE / BUENOS AIRES, O Estado de S.Paulo

12 de dezembro de 2015 | 13h04

O presidente argentino Mauricio Macri enfrentará interesses de bancos com os quais vem negociando empréstimos para elevar o nível das reservas em dólar, estimados em US$ 25 bilhões. A tarefa de lidar com o primeiro grande atrito de seu governo coube ao novo presidente do Banco Central, Federico Sturzenegger, que informou aos representantes de entidades financeiras ontem de manhã que a nova administração não deverá honrar os contratos de venda de “dólar futuro” feitos pelo kirchnerismo.

Sturzenegger comunicou que o pagamento, diante de uma iminente desvalorização do peso preparada pelo governo Macri, causaria no BC um prejuízo de até US$ 7 bilhões.

A administração do kirchnerista Alejandro Vanoli, que renunciou à presidência no início da semana, usou esse instrumento na expectativa de manter um câmbio praticamente fixo, de 9,70 pesos por dólar – no paralelo, está em 14,70. O país mantém um controle sobre a cotação desde 2011. Sem a ajuda dos bancos aos quais não pretende pagar o prometido pelo governo de Cristina Kirchner, Macri terá dificuldade para cumprir a promessa de liberar o câmbio.

A proposta do Banco Central argentino é traçar uma linha e revisar cada contrato, alegando que contém um vício de origem. Segundo representantes de bancos ouvidos pelo jornal La Nación, o novo presidente do BC disse que o mercado havia especulado com a diferença cambial e teria de assumir o prejuízo. Um dos banqueiros disse ao jornal argentino que a proposta “é uma loucura, por representar milhões e o risco de que todos os que compraram os dólares com a cotação fixa entrem na Justiça”. “É um desastre. Apenas assumiram e já aplicarão um calote”, disse outro representante dos bancos ao La Nación.

As organizações ameaçaram baixar os limites de crédito caso o BC argentino não honre os contratos com os bancos, muitos dos quais têm matriz estrangeira e estão sendo procurados pelos novos funcionários argentinos para ajudar a engordar as reservas com empréstimos.

O historiador especializado em economia Daniel Muchnick explica que o dólar futuro é um contrato pelo qual o BC se compromete a entregar em uma data uma quantidade de dólares a um preço fixado previamente. “Como o BC sabe que haverá uma desvalorização do peso, teria que emitir bilhões de pesos para pagá-los, complicando também a tentativa de controlar a inflação”, afirma.

Três semanas antes de vencer a eleição, a coalizão de centro-direita Cambiemos iniciou uma ação judicial para proibir Vanoli de seguir com esse tipo de operação. Ele tinha mandato até 2017, mas a pressão judicial o estimulou a entregar o cargo antes, como exigia o novo presidente, que o considerava “um militante kirchnerista”.

A quatro dias da votação, a Justiça acatou a ação e juiz federal Claudio Bonadio ordenou uma operação de busca no BC, acusando o kirchnerista de fraude. A ação foi executada pela polícia metropolitana, comandada então por Macri, ainda na prefeitura de Buenos Aires.

Vanoli passou a ser investigado por contratos estimados em US$ 12 bilhões, volume superior ao usual para essas operações, pelas quais a Argentina vendia a moeda americana a 10,65 pesos, para entrega em março de 2016. Isso ajudava a descomprimir a demanda atual.

Empresas no mercado americano conseguiam fazer a troca por cerca de 14 pesos, valor médio da moeda no mercado paralelo, e lucrar cerca 40%. Ex­presidente do BC entre 2004 e 2010, maior parte dos dois primeiros mandatos kirchneristas, o economista Martín Redrado afirmou haver muito para investigar sobre quem se envolveu nesses contratos.

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