Ruben Sprich|Reuters
Ruben Sprich|Reuters

Macri ‘vende’ Argentina pós-populismo

Em Davos, novo presidente argentino se empenha em mostrar mudança na trajetória política do país e disposição em atrair capital externo

Rolf Kuntz, enviado especial, O Estado de S.Paulo

22 de janeiro de 2016 | 05h00

DAVOS - O novo presidente argentino, Mauricio Macri, chegou a Davos com uma costela trincada, dois ministros, o presidente do Banco Central e um deputado da oposição, todos empenhados em apresentar ao mundo uma Argentina pós-populista, disposta a negociar com os credores, com amplas oportunidades de investimento e, segundo suas palavras, “pronta para decolar”.

A defesa dos direitos humanos continua no alto de sua agenda regional, assim como a disposição de pressionar o governo da Venezuela, hoje sócia do Mercosul, pela libertação dos presos políticos. A costela avariada é resultado de uma brincadeira com a filha, mas, apesar da recomendação de parte dos médicos, a viagem foi mantida, com ajuda de um colete especial.

O primeiro compromisso internacional da Argentina, observou Macri num encontro com jornalistas, é com o Mercosul – mas o Mercosul, acrescentou, tem alternado avanços e recuos nos últimos dez anos. Falando sobre o futuro do bloco, um dia antes, a ministra de Relações Exteriores, Susana Malcorro, havia reafirmado a disposição do novo governo de eliminar o protecionismo entre os vizinhos e de buscar novos rumos.

A pauta regional poderá incluir novos acordos, disse Macri ao responder a uma pergunta sobre uma eventual aproximação com a recém-formada Parceria Transpacífico. O novo presidente indicou, no entanto, a intenção de rever as condições do amplo acordo de cooperação econômica estabelecido no governo anterior com a China.

Esse acordo ofereceu amplas vantagens a empresas chinesas para operar na Argentina, até com risco de danos comerciais aos países vizinhos, mas nenhum desses detalhes foi mencionado por Macri. Ele se limitou a anunciar um reexame crítico do assunto.

A mudança política é parte da retórica de um governo empenhado em reabrir as portas do mercado internacional de capitais. Ontem à tarde, Macri compareceu à conversa com jornalistas acompanhado de assessores, algo previsível, mas também do deputado Sérgio Massa, terceiro colocado na eleição presidencial do ano passado.

Peronista divergente do kirchnerismo, o deputado Massa, ex-prefeito da cidade de Tigre, declara-se opositor do novo governo, mas também sustenta o discurso do enterro do populismo e da renovação política.

Estratégia. Vender a imagem de uma ruptura com a tradição é parte da estratégia do novo governo. “A história vai contra nós”, respondeu Macri quando lhe perguntaram por que empresários e investidores devem agora confiar no governo argentino. “Estamos aqui”, insiste, “porque a Argentina mudou seu modo de ver o mundo”. Uma longa experiência, disse o presidente, mostrou a inconveniência de esperar soluções de líderes providenciais ou messiânicos.

O caminho da normalização passa por um entendimento com os credores mais complicados, conhecidos como “holdouts” e muitas vezes chamados de abutres. Esses credores nunca aceitaram os termos da renegociação acertados com outros detentores de títulos públicos argentinos. “Não estamos para brincar”, disse o ministro de Finanças, Alfonso Prat-Gay, enfatizando a disposição de buscar um acordo com ajuda do mediador indicado pelo juiz encarregado do processo aberto, em Nova York, pelos “holdouts”.

Prat-Gay havia mencionado a viagem a Davos, numa entrevista recente, como um esforço para recordar ao mundo a existência da Argentina. O esforço inclui muitos encontros paralelos à reunião do Fórum Econômico Mundial e a apresentação de um amplo cardápio de oportunidades de investimento – em portos, pontes, estradas de rodagem, ferrovias, mineração e turismo, por exemplo. Mas a delegação argentina veio também para falar sobre os ajustes necessários à recuperação da economia, como combate à inflação – superior a 20%, segundo cálculos de economistas independentes – e a redução do déficit público.

É uma tarefa semelhante à do ministro da Fazenda brasileiro, Nelson Barbosa, igualmente empenhado em falar sobre a disposição de seu governo de reduzir os muitos desajustes. Mas Barbosa tem a desvantagem de representar um país em recessão desde 2014 e com perspectivas muito incertas de retorno ao crescimento até 2017.

O presidente argentino enfrentou, na conversa com jornalistas, uma pergunta sobre o inconveniente da recessão num vizinho e parceiro tão grande quanto o Brasil. A recessão brasileira, respondeu, certamente afeta seu país. Mas a desvantagem pode ser atenuada, acrescentou, se parte dos investimentos dirigidos em outras circunstâncias a projetos brasileiros for desviada para a Argentina.

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