Adriano Machado/Reuters
Adriano Machado/Reuters

Em francês, Mourão rebate críticas de Macron à soja brasileira

O vice-presidente disse que 'Monsieur Macron n'est pas bien' (o sr. Macron não está bem) e que a produção agrícola na região amazônica é ínfima; presidente francês afirmou que 'depender da soja brasileira seria apoiar o desmatamento da Amazônia'

Emilly Behnke, O Estado de S.Paulo

13 de janeiro de 2021 | 10h38
Atualizado 13 de janeiro de 2021 | 11h47

BRASÍLIA - Em reação a declarações do presidente da França, Emmanuel Macron, sobre o desmatamento na Amazônia e a produção de soja no Brasil, o vice-presidente Hamilton Mourão disse nesta quarta-feira, 13, que o mandatário francês desconhece a produção de soja brasileira. Presidente do Conselho Nacional da Amazônia, Mourão destacou que a produção agrícola da região amazônica é "ínfima" e que Macron apenas "externou interesses protecionistas dos agricultores franceses".

Na terça-feira, 12, em suas redes oficiais, o presidente francês afirmou que "continuar a depender da soja brasileira seria apoiar o desmatamento da Amazônia". No vídeo publicado em sua conta oficial do Twitter, o presidente francês fala em "não depender mais" da soja brasileira e produzir o grão na Europa. "Nós somos coerentes com nossas ambições ecológicas, estamos lutando para produzir soja na Europa", afirmou.


Questionado sobre as declarações nesta quarta, Mourão afirmou, em francês, que Macron não estava bem. "Monsieur Macron? Monsieur Macron n'est pas bien (O Sr. Macron não está bem). Monsieur Macron desconhece a produção de soja no Brasil. Nossa produção de soja é feita no Cerrado ou no Sul do País. A produção agrícola na Amazônia é ínfima", declarou Mourão para jornalistas na chegada à vice-presidência. 

Ele destacou que o Brasil tem menos de 8% da sua área dedicada à agricultura, enquanto a França tem mais de 60%. Apesar disso, avaliou que o país europeu não tem condições de competir com o Brasil na produção de soja. “Nesse aspecto, na questão da produção agrícola damos de 10 a 0 neles (franceses)”, disse. 

“Nada mais, nada menos (Macron), externou interesses protecionistas dos agricultores franceses, faz parte do jogo político”, opinou. Na avaliação do vice-presidente, a fala do presidente francês não deverá influenciar outros líderes mundiais. “Acho que foi discurso interno."

 

Segundo dados da Secretaria de Comércio Exterior do Ministério da Economia consultados pelo Estadão/Broadcast, quase 20% das exportações para a União Europeia, bloco do qual os franceses fazem parte, são de soja e farelo de soja produzidos pelo Brasil. 

No ano passado, o Brasil exportou US$ 27,1 milhões em soja para a França, além de US$ 544 milhões de farelo de soja, de um total de US$ 1,983 bilhão em embarques para o país europeu. A quantidade recebida pela França pode ser ainda maior considerando dados agregados da produção recebida por portos da Espanha e Países Baixos e depois escoada para demais países europeus. 

Procurados pela reportagem na terça, os ministérios da Economia e da Agricultura disseram que não comentariam as declarações de Macron. Questionada nesta quarta, a Secretaria Especial de Comunicação Social (Secom) orientou procurar novamente o Ministério da Agricultura, que até a publicação deste texto não havia respondido ao pedido de manifestação. 

Em nota, a Frente Parlamentar da Agropecuária disse que acompanhou com "constrangimento" a fala de Macron, ligando a produção de soja ao desmatamento. "Somos sustentáveis, cumprimos regras sanitárias e ambientais mais rígidas do que os países competidores e estamos alcançando um padrão de qualidade nunca visto antes, sem aumentar nossa área de plantio. Para a França alcançar o patamar do Brasil, vai precisar conquistar novos territórios, o que a modernidade e a civilidade não permitem mais", afirmou o deputado Alceu Moreira, presidente da frente. 

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