Adilton Venegeroles/Estadão
A ambulante Admoura Bastos se desfez do fogão a gás, por causa do custo e por precisar de dinheiro extra para a chegada do quinto filho, no ano passado Adilton Venegeroles/Estadão

Mãe vende o botijão de gás para comprar enxoval de bebê

Custo do insumo era muito mais alto do que ela podia arcar

Fernanda Nunes e Laila Nery, especial para o 'Estadão', O Estado de S. Paulo

10 de outubro de 2021 | 05h00

Quando descobriu que estava grávida do quinto filho, há um ano, a vendedora ambulante Admoura Bastos buscou em casa o que poderia vender para conseguir o dinheiro do enxoval do bebê. A escolha recaiu sobre o fogão e o botijão de gás. Em Salvador, onde mora, o botijão custa, em média, R$ 90 – muito acima do que Admoura poderia arcar. 

A alternativa foi construir um fogão a lenha, amassando barro com os pés no quintal de casa, no subúrbio da capital baiana. A madeira usada para aquecer a comida é encontrada no meio da rua, em lixeiras ou recolhida de árvore. Quem fica à frente do fogão, cozinhando no dia a dia, é sua filha de 12 anos.

“Ela que é a dona da casa quando eu não estou. Fica o dia inteiro na boca do fogão fazendo mingau para a bebê. Ela assume mesmo, se incomoda com a fumaça. Os irmãos também tossem, mas ela é quem sofre mais”, contou a ambulante.

A pessoa que cozinha num fogão a lenha construído de forma rudimentar, como o de Bastos, consome tanta fumaça em um dia quanto um fumante de dois maços de cigarro, segundo relatório da Organização Mundial de Saúde (OMS). 

Em Matuípe, interior da Bahia, a família da faxineira Marinês Rocha não compra um botijão de gás há quatro meses. Ela conta que pagou R$ 82 da última vez (hoje, passa dos R$ 100). Ainda assim, mantém um restinho no botijão para uma emergência. “Enquanto a situação em casa não melhora, a solução é cozinhar a lenha.”

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Gás a R$ 100 faz consumidor voltar a usar lenha

Disparada do insumo, que subiu mais de 80% desde o início de 2020, levou a retrocesso que pode afetar a qualidade de vida das famílias

Fernanda Nunes, O Estado de S. Paulo

10 de outubro de 2021 | 05h00

RIO - Com o gás de cozinha custando mais de R$ 100 e a crise corroendo o orçamento das famílias mais pobres, a lenha ganhou espaço nos lares brasileiros durante a pandemia. Em 2020, o consumo de restos de madeira em residências aumentou 1,8% frente a 2019, segundo a Empresa de Pesquisa Energética (EPE).

Famílias estão guardando botijões de gás para usar apenas em emergências, e outras até venderam o fogão para fazer dinheiro na crise. Como solução, recorrem à lenha e ao carvão vegetal para cozinhar, um retrocesso em saúde e qualidade de vida.

Até 1970, 80% dos lares usavam pedaços de madeira para cozinhar e se aquecer. Com a massificação da eletricidade e do gás liquefeito de petróleo (GLP), o como gás de cozinha, esse quadro se alterou. Hoje, a eletricidade é a principal fonte de energia, mas a lenha ainda ocupa a segunda colocação na matriz residencial, com 26,1% de participação, seguida do GLP (24,4%), de acordo com a EPE.

O gás estava sendo mais consumido do que a lenha até 2017, quando o preço do botijão começou a disparar. Naquele ano, a Petrobras alterou sua política de preços e começou a reajustar o GLP toda vez que a cotação do petróleo e o câmbio subiam, assim como já fazia com a gasolina e o óleo diesel.

Como a commodity se valorizou muito no ano passado, o GLP disparou no Brasil. O resultado foi um crescimento ainda maior do consumo de lenha em 2020, um ano de deterioração do mercado de trabalho e escalada da inflação. As estatísticas de 2021 ainda não estão disponíveis. A projeção do órgão de planejamento energético do governo, no entanto, é de que o uso da lenha encolha apenas com “a retomada do crescimento da economia e o aumento da renda”.

“Até a metade do século 18, a lenha era a energia predominante, antes da invenção da máquina a vapor. Com o avanço tecnológico, o carvão e, depois, o petróleo e o gás assumiram a dianteira como fonte de energia. O avanço da lenha no Brasil representa um retrocesso em 200 anos”, afirma Rodrigo Leão, pesquisador do Instituto de Estudos Estratégicos de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (Ineep).

Algumas alternativas de baixo custo e emissão de carbono até são estudadas pela EPE. Uma delas é o aproveitamento de resíduos sólidos urbanos para produzir gás. “Poderiam ser construídos grandes biodigestores e canais de distribuição de biometano nas comunidades, por exemplo. Mas esbarramos em muitas dificuldades, até na coleta seletiva do lixo”, diz Carla Achão, superintendente de Estudos Econômicos, Energéticos e Ambientais da EPE.

Sem alternativas

Enquanto novas soluções não saem do papel, a demanda por lenha avança entre os mais pobres. Para essa fatia da população, o peso da inflação nos gastos do dia a dia é 32% maior do que para os mais ricos, segundo cálculos do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), com base no Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), calculado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A alta do gás foi um dos principais fatores para que os mais pobres sintam mais o peso da inflação, diz o Ipea.

Apenas neste ano, a Petrobras já reajustou o preço do GLP em 47,53%. Desde o início de 2020, a alta acumulada é de 81,5%. O aumento mais recente, de 7%, foi anunciado na sexta-feira, após 95 dias de estabilidade e forte pressão política para segurar o preço.

Um programa de acesso ao gás de cozinha está sendo elaborado pela estatal. O conselho de administração da empresa aprovou a liberação de R$ 300 milhões, em 15 meses, para ajudar as camadas mais pobres a comprar o botijão. O modelo de distribuição desse dinheiro ainda não está definido. Se fosse usado para custear integralmente o produto, esse valor seria suficiente para beneficiar 400 mil famílias (considerando o botijão a R$ 100 e a duração de um botijão por dois meses), um número de pessoas pequeno frente aos cerca de 15 milhões inseridos no

Programa Bolsa Família

“É possível que parte da população que passou a utilizar a lenha na pandemia não consiga voltar a consumir o GLP imediatamente, no pós-pandemia. A lacuna econômica que se formou não será extinta na mesma velocidade da retomada. E, ainda, uma parte dessa mesma população vai pensar em comer carne antes de comprar gás. Esse é um problema social que vai além da questão do gás e precisa ser analisado de forma mais estruturada e em conjunto com programas sociais”, avalia Anderson Dutra, sócio da KPMG e especialista em energia e recursos naturais. / COLABOROU DANIELA AMORIM, DO RIO

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