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'Magia de hoje será a realidade de amanhã'

'Futurista' presente em evento de inovação no Recife diz que mundo dará salto de 2 mil anos em duas décadas

Entrevista com

José Luis Cordeiro, professor da Singularity University

Marina Gazzoni, O Estado de S.Paulo

31 de agosto de 2015 | 02h04

RECIFE - Carros sem motorista, carne artificial, crianças projetadas e até o fim da morte. Tudo isso será realidade nas próximas décadas, de acordo com previsões divulgadas na última semana, em Recife, pelo futurologista venezuelano José Luis Cordeiro, em sua palestra magna na 15ª Conferência de Inovação Tecnológica da Associação Nacional de Pesquisa e Desenvolvimento das Empresas Inovadoras (Anpei), que tem associados como Natura, Braskem e Fiat.

Engenheiro mecânico e ex-executivo da indústria de óleo e gás, Cordeiro é atualmente professor da Singularity University, instituição de ensino localizada dentro do escritório da Nasa no Vale do Silício, na Califórnia, e pesquisador do projeto Millenium, órgão ligado à Universidade das Nações Unidas que elabora relatórios sobre tendências do futuro.

Usando uma gravata do Mickey Mouse - personagem que ele relaciona à criatividade, inovação e até à imortalidade -, Cordeiro surpreendeu a plateia em Recife com projeções que parecem absurdas. Leia a seguir os principais trechos da entrevista de Cordeiro ao Estado:

Como será o futuro?

Estamos vivendo tempos incríveis. Veremos mais mudanças nas próximas duas décadas do que nos últimos 2 mil anos. A tecnologia evolui mais rápido e trará um crescimento expressivo para este século. O mundo cresceu 400% no século 20, mas podemos crescer 4.000% no século 21.

Quais as principais tendências tecnológicas?

Existem quatro macro tendências que devem trilhar o desenvolvimento tecnológico, que levam a sigla de NBIC - é nano, bio, info e cogno (estuda como a informação se transforma na mente). A nanotecnologia levará a engenharia à perfeição. Nada vai sobrar no processo produtivo e vamos acabar com o lixo. Com avanços na biologia, vamos projetar as crianças, controlar o envelhecimento e até evitar a morte. E a informática deixará tudo conectado - os carros, as cidades, as máquinas. O Google já tem carros sem motorista e eles vão ganhar as ruas. Nós vamos fazer parte da última geração que dirige. E vamos conectar cérebros humanos com cérebros artificiais e com coisas. A telepatia, por exemplo, será uma realidade.

Isso é mesmo plausível?

Sim. Hoje parece maluquice. Mas a inovação quando nasce é assim mesmo. A magia de hoje será realidade amanhã graças à ciência.

E sobre impedir a morte. O sr. está falando sério?

Absolutamente sério. A tecnologia vai evoluir para isso. Já sabemos que as células do câncer não envelhecem. Ninguém será imortal, porque se um piano cair sobre a sua cabeça, você ainda vai morrer. Mas vamos curar o envelhecimento. Tudo terá de se reinventar, começando pelos planos de saúde e de previdência.

Existem questões éticas que envolvem os experimentos na área biológica. Essas tecnologias vão passar por cima disso?

Os diferentes países, culturas e religiões enxergam esse tema de forma diferente. Na Índia, há pesquisas avançadas em clonagem de órgãos. E existem muitos experimentos com ratos e até com humanos na China que vão permitir curar muitas doenças. Estou quase convencido que em dez anos não haverá mais paraplégicos, graças às pesquisas com células tronco feitas na China e que não podem ser feitas nos Estados Unidos porque eles consideram que elas são antiéticas.

E qual será o preço? Serão soluções para poucos?

As tecnologias quando são lançadas são caras, mas depois ficam baratas. O primeiro genoma humano custou mais de US$ 1 bilhão e levou mais de uma década para ser mapeado. Mas faremos isso em minutos e por US$ 10 daqui a dez anos. É como ocorre com eletrônicos, que chegam caros e elitistas e depois ficam populares

Qual será o impacto da tecnologia no mercado de trabalho?

Novas profissões serão criadas e outras eliminadas. Há 200 anos, 90% dos humanos eram agricultores, hoje só 10% são. Ou seja, 80% dos humanos foram desempregados da agricultura. E estamos contentes com isso. No futuro, também vamos substituir muitas profissões por trabalhos que serão melhores, com maior poder aquisitivo e mais intelectuais.

No relatório do projeto Millenium fala-se no risco de manutenção de um alto índice de desemprego de longo prazo. Isso é culpa das novas tecnologias?

Durante a transição, os robôs poderão fazer muitas coisas que hoje os humanos fazem e vamos precisar de tempo para aprender outras. Nesse período, é possível que tenhamos mais desemprego.

Quanto tempo levará?

Pode ser dez anos, talvez mais, talvez menos. Quando passamos de caçadores e coletores para agricultores, levamos milhares de anos. Quando passamos de agricultores a industriais, levou um século. Agora será mais rápido. Algo como uma década ou duas.

Será mesmo possível implementar essas inovações? Hoje há restrições ao Uber em vários países, como o Brasil.

Teremos confrontações entre o novo e o velho, mas as novas tecnologias vão ganhar. O Uber vai ser aceito em todos os países, simplesmente porque é uma tecnologia melhor e mais barata.

E os carros autônomos? Eles vão acabar com o emprego dos motoristas do Uber.

Existirão outros empregos, serão melhores e pagarão mais. O carro autônomo será uma tecnologia melhor, que vai acabar com as mortes no trânsito. Acho que no futuro vão até proibir que os humanos dirijam.

Os países ricos estão na frente no desenvolvimento tecnológico. O abismo entre ricos e pobres será maior?

Não. Tudo está conectado e todos terão acesso à tecnologia. Não haverá desculpas para ser subdesenvolvido.

Qual o papel do Brasil no desenvolvimento tecnológico?

É promissor. Há muitos brasileiros fazendo pesquisas em robótica, engenharia e biomedicina. O próprio Google tem um centro de inovação em Minas Gerais. O Brasil não precisa criar tudo. Pode inventar algumas coisas e copiar o resto.

* A repórter viajou a convite da Anpei

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