Ed Ferreira/Estadão
Ed Ferreira/Estadão

Mailson: Guedes enfraquece Previdência ao dizer que Congresso pode controlar Orçamento

Para ex-ministro da Fazenda, a ausência de uma reforma pode ser o princípio de um caos, com uma fuga rápida e grave de capitais

Francisco Carlos de Assis, O Estado de S.Paulo

02 Janeiro 2019 | 21h07

SÃO PAULO - O discurso do ministro da Economia, Paulo Guedes, feito nesta quarta-feira, 2, após ter recebido o comando da pasta das mãos de Eduardo Guardia, em linhas gerais, é digno dos aplausos que recebeu, mas acomoda um raciocínio que enfraquece o discurso da reforma da Previdência, disse ao Estadão/Broadcast o ex-ministro da Fazenda e atual sócio da Tendências Consultoria Integrada, Mailson da Nóbrega. Para Mailson é um discurso com um diagnóstico correto, mas que precisa de acertos em muitos pontos. A crítica do ex-ministro se centraliza sobre a parte em que Guedes diz que se a reforma da Previdência não for aprovada a situação chegaria a um limite tal que os congressistas se veriam obrigados a assumir o seu protagonismo, passando a controlar o Orçamento e a aprovação de um pacto federativo, um dos vários objetivos da área econômica do governo Bolsonaro.

"Esse é o tipo de raciocínio que enfraquece o discurso da reforma da Previdência porque manda a mensagem para os congressistas, que não são nada simpáticos à reforma, de que tem uma saída", lamentou o ex-ministro da Fazenda. Para ele, a ausência da reforma pode ser o princípio de um caos porque a relação entre dívida e Produto Interno Bruto (PIB) está crescendo sem parar. "Pela metodologia do FMI já passou de 80%. E mesmo assim o mercado financeiro continua investindo em papéis do Tesouro porque o mercado, aqui e lá fora, comprou a narrativa de que Bolsonaro vai fazer a reforma da Previdência." 

Para o ex-ministro, se a reforma não for feita, essa narrativa se desmorona e leva a uma fuga rápida e grave de capitais decorrente da deterioração também grave da confiança.

Gastos públicos

Ainda de acordo com Mailson, o novo ministro da Fazenda poderia ter dito que a Constituição de 1988 é a principal causa do desarranjo fiscal do Brasil. "Ele preferiu culpar os governos. Claro que os governos erraram como foi o caso da Dilma Rousseff, que destinou 10% do PIB para o BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) fazer subsídios, mas o crescimento sistemático dos gastos públicos não decorre de ações dos governos, necessariamente", disse, acrescentando que se pode concluir que governos pioraram isso como nos aumentos reais do salário mínimo que passou de 200% em termos reais nos períodos de Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva.

Imposto único

O ex-ministro também criticou a defesa de Guedes ao Imposto Único, que em sua opinião é uma ideia inviável. "Agrada aos não familiarizados com questões tributárias, mas nenhum especialista minimamente informado defende a ideia de um imposto único sobre transações financeiras."

De acordo com Mailson, o Imposto Único defendido pelo economista Marcos Cintra, agora membro da equipe econômica, contraria a ideia do próprio Guedes de descentralização dos recursos, uma vez que concentra o tributo na União.

O único ponto certeiro do discurso de Guedes, na avaliação do ex-ministro, está na defesa das privatizações. Ainda assim, será um ponto que demandará do atual ministro muito poder de persuasão para convencer o presidente Bolsonaro a vender o Banco do Brasil, a Caixa Econômica Federal, a Eletrobrás e a Petrobrás, que respondem por 80% dos ativos da União. "E o Bolsonaro já disse que não privatizará essas empresas", lembrou Mailson. 

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