Maior oferta de vagas incentiva alta rotatividade

Trabalhadores menos qualificados preferem ser demitidos para sacar o FGTS e receber o seguro-desemprego

Glauber Gonçalves e Daniela Amorim, O Estado de S.Paulo

25 de junho de 2011 | 00h00

A alta rotatividade de trabalhadores tem afetado atividades que exigem baixa qualificação. Com o avanço da criação de postos de trabalho, esse tipo de trabalhador, que tem poucas oportunidades de crescimento dentro da empresa, prefere ser demitido para receber o seguro-desemprego e o Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS), ficar um tempo na informalidade e depois arrumar outro trabalho.

Dados da Caixa Econômica Federal mostram que o número de saques do FGTS por demissão sem justa causa aumentou, passando de 17.371.672 em 2009, ano em que houve demissões como resultado da crise global, para 17.543.826 em 2010, quando a economia brasileira registrou recorde de contratações. Nesse ano foram 2,861 milhões de novas vagas, num total de 44,068 milhões de empregos com carteira assinada.

"O Brasil é o único país que conheço em que, quando a taxa de desemprego diminui, os gastos com seguro-desemprego aumentam. A legislação trabalhista brasileira gera um enorme incentivo para que os trabalhadores pouco qualificados queiram ser demitidos, porque eles recebem um prêmio em dinheiro", afirma o professor José Márcio Camargo, da PUC-Rio.

Analistas explicam que a maior oferta de vagas formais acaba criando uma dificuldade para o preenchimento de postos em atividades com remuneração menor ou que exijam um esforço físico maior. "Em um momento de crescimento do emprego, as pessoas começam a ser mais seletivas, e torna-se mais difícil atrair gente. Mesmo que a pessoa tenha um nível de qualificação menor, ela tem mais facilidade de encontrar trabalho em outros lugares", explica o pesquisador Roberto Gonzalez, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).

O setor de construção, por exemplo, convive com a saída de serventes para trabalhar em residências, fazendo serviços gerais. Como o salário desses profissionais é baixo, eles acabam contratados por famílias, por valor um pouco superior ao seu salário anterior, para desenvolver atividades menos pesadas do que exerciam no canteiro de obras.

"Está havendo uma procura por serventes de baixa renda para trabalho em casa de família em funções como caseiro, faxineiro e jardineiro", diz Laudelino da Costa Mendes Neto, presidente do Conselho Empresarial das Relações do Trabalho, da Associação Comercial do Rio.

Segundo economistas, nos próximos anos, o problema pode se agravar, podendo chegar ao ponto de o País se transformar em um polo receptor de mão de obra de nações vizinhas para desempenhar funções rejeitadas pelos brasileiros.

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