Maior parte do mercado aposta em alta do juro

Pesquisa mostra que 53 de 83 casas esperam elevação da Selic e, destas, 33 projetam alta para 7,5% ao ano

Denise Abarca, Maria Regina Silva e Flavio Leonel, da Agência Estado,

16 de abril de 2013 | 18h00

Após a recente virada no quadro de apostas para a decisão do Comitê de Política Monetária (Copom), o AE Projeções, serviço especializado da Agência Estado, atualizou sua pesquisa junto aos economistas do mercado financeiro que, agora, passaram, em sua maioria, a esperar elevação da Selic nesta quarta-feira (17). Entre 83 instituições consultadas, 53 delas projetam aumento da taxa básica, enquanto as 30 demais preveem estabilidade, em 7,25%. Do grupo de 53 que conta com um aperto monetário nesta semana, a maioria (33) aguarda elevação de 0,25 ponto porcentual e outros 20 profissionais acreditam em alta de 0,50 ponto. Na quinta-feira passada (11), 63 entre 78 instituições consultadas previam estabilidade do juro em abril.

Mais do que pelos indicadores macroeconômicos, a corrente dos que esperam aumento da Selic foi reforçada nos últimos dias por um efeito manada do mercado, após as declarações do presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, e do ministro da Fazenda, Guido Mantega, na última sexta-feira.

O presidente do Banco Central, em evento no Rio, declarou que "não há nem haverá tolerância com a inflação". "Estamos neste momento monitorando atentamente todos os indicadores e, obviamente, no futuro, vamos tomar decisões sobre o melhor curso para a política monetária", afirmou. No mesmo dia, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, disse, em entrevista exclusiva ao Broadcast que, se for preciso elevar os juros, "não é um necessário um tiro de canhão, pode ser de metralhadora".

E a presidente Dilma endossou o coro ontem (15). "Não fazemos concessão à inflação e sempre combatemos e combateremos a inflação, principalmente pelo mal que causa para trabalhadores e empresários. Corrói as rendas. Não abriremos mão desse controle", afirmou, durante seminário sobre os dez anos de governo do PT no País. Hoje (16), afirmou ainda que "qualquer necessidade de combate à inflação" poderá ser feita em um patamar de juro bem menor do que o já vivido no Brasil em épocas anteriores.

Boa parte do mercado entendeu as palavras do governo como um recado claro de que a Selic vai subir em abril. Para o HSBC, que trabalha com um aumento de 0,50 ponto, "Tombini usou exatamente a mesma linguagem que o Banco Central usou em ocasiões anteriores para sinalizar aos investidores que o começo de um ciclo de aperto era iminente", segundo relatório do banco.

Especificamente, a expressão monitorando "atentamente" foi utilizada antes dos últimos dois ciclos de aperto, complementaram os economistas.

A INVX Global já esperava alta de 0,25 ponto porcentual para o juro básico em abril, embora admita que se o Comitê colocar a taxa em 7,75% não será surpresa. "A melhor estratégia seria iniciar o processo com pelo menos 0,25 ponto porcentual, mas consideramos a possibilidade do ajuste para 7,75%. Estimamos que o nível da Selic teria que atingir uma taxa na faixa de 8,75% a 9,0% até o final deste ano para manter uma trajetória de inflação decrescente em relação ao ano anterior, beneficiando a convergência do IPCA para a trajetória de metas sob a ótica de médio prazo", comentou o economista-chefe Eduardo Velho.

A dúvida, na sua visão, é "se o governo vai priorizar um combate agressivo na inflação com aperto monetário e fiscal ao custo de elevação da taxa de desemprego às vésperas da eleição presidencial".

Na outra ponta, a Concórdia Corretora manteve-se na ala dos menos conservadores, preservando sua projeção de Selic inalterada em 7,25% nesta reunião. Conforme explicou o economista Flávio Combat, a previsão tem por base "a trajetória vacilante" dos dados de atividade e a expectativa de desaceleração dos preços. "Ainda que o IPCA em 12 meses esteja acima da meta, há perspectiva de descompressão da inflação", disse.

Além disso, afirma Combat, o BC não abandonou o termo "cautela" na última ata, referindo-se à eventuais mudanças na condução da política monetária. "Os sinais são mais de postergação do início do ciclo do que de aperto agora", avaliou o economista, que acredita que a Selic começará a subir em maio e que o processo incluirá um total de três altas consecutivas de 0,50 ponto.

Para Combat, "é possível que haja dissidência" no placar de votação, o que funcionaria como uma sinalização de que a intenção é ajustar a taxa no próximo encontro. Se confirmada sua expectativa de manutenção nos juros, o economista afirma que o comunicado deve dar ênfase na questão da atividade, "até pelo IBC-Br divulgado pelo próprio BC na sexta-feira". O IBC-Br recuou 0,52% em fevereiro ante janeiro, com ajuste sazonal.

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